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Seção: Registro Histórico
007: TPM: Entrevista com Lizard
Ano 2000 |
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Série de Entrevistas e outros Registros Históricos do BDSM. |

Pegar esse Lagarto deu um trabalhão. Eta bichinho escorregadio !
Montamos uma super-produção (devidamente supervisionada pelo IBAMA). Mandamos construir um aquário enorme (o bicho é grande...), com paredes de vidro e chão de cerâmica fria. Assim, ele não teria onde se esconder e nem como escapar. Estaria exposto por todos os lados e ficaria ao alcance de nossos olhos, mãos e perguntas. E ainda estaríamos protegidas. Vai que o moço se zangasse e começasse a distribuir lambadas com a cauda e a língua (se bem que algumas das meninas dariam tudo pra provar, ao vivo, uns desses tapinhas). Bem, vamos lá tirar o couro do moço, mas com muito cuidado pra não danificar a pele - que vai dar uma boa grana no mercado negro.
TPM - Esse nick é bastante exótico. Conta pra gente qual a origem dele e como foi parar naquele zôo da fetiches.
Lizard - Bom, como todo mundo sabe, quer dizer 'Lagarto', mas também não quer dizer 'Lagarto". 'Lizard' é o nome de um disco e de uma música de um grupo 'ProgRock' chamado King Crimson. Essa música me impressionava particularmente, além do fato de que gosto da palavra, do som da palavra. E quanto à salinha, eu a encontrei meio por acaso. Muito do que acontece em minha vida é assim, meio por acaso.
TPM - A criação da forma de expressão do nick é um processo que muitas vezes demora um tempo para se completar. Até que ponto as fantasias do Lagarto já estavam prontas quando chegou na fetiches ?
Lizard - Estavam prontas no sentido que não estavam prontas... Entendeu? Não tenho fantasias, eu as crio em cada encontro. É como música de jazz - cada interpretação é diferente da outra, de modo que você sabe o que esperar. Chet Baker é Chet Baker, Winton Marsalis é Winton Marsalis. Mas exatamente o que vai surgir em cada performance... É impossível saber, e aí é que tá a graça da coisa. Cada encontro é um grande acaso. É disso que estou falando.
TPM - No caso dos fetiches, o acaso poderia ser traduzido como "um encontro acidental que se parece com um encontro intencional" ? Afinal, nada acontece tão por acaso assim...
Lizard - Bem, a gente procura. Claro. Existe uma linha de desejos e expectativas que coincidem, mas nunca são exatamente concordantes. É por isso que disse que tudo em minha vida é meio por acaso. Não jogo uma oportunidade fora, e as oportunidades surgem ao acaso. Minha chegada na salinha foi assim.
TPM - Uma cauda grande e uma língua comprida e afiada. Seriam essas as principais características do Lagarto ?
Lizard - Cauda é por sua conta. Quanto ao fio da língua, depende muito do dia, do humor, essas coisas. De qualquer forma, gosto de argumentar e sou bom nisto, mas tem muita gente à minha altura na salinha. E eu prefiro dizer que a língua é molhada, e não afiada. Palavras não cortam- acariciam.
TPM - ( língua molhada ? assim vai ficar difícil controlar essa mulherada até o final da entrevista ! ) Mas podemos dizer que poucas foram contempladas com essas carícias...
Lizard - Muito poucas. Eu gostaria de comer todas as mulheres do mundo - qualquer cara tem esse desejo secreto. Mas aquele que conseguir dá um tiro na cabeça cinco minutos depois da última, porque a vida vai perder a graça. Não sei quanto ao resto da bicharada, mas para este Lagarto aqui, sonhar é muito melhor que realizar.
TPM - Muitas mulheres consideram o Lizard um grande desafio. Escorregadio, sarcástico, muitas vezes debochado, com um estilo de sedução frio e ácido. Dá a receita pra adoçar a boca do Lagarto.
Lizard - Não tem receita alguma, e, venhamos e convenhamos, estilo de sedução 'frio e ácido' não seduz ninguém, a não ser que a seduzida ou seduzido seja doido, o que não é muito meu departamento. Eu gosto de conversar com mulheres, tanto quanto gosto de conversar com homens. Só que as mulheres costumam ser mais interessantes que os homens... E não pelos motivos que as pessoas costumam imaginar.
TPM - Que as mulheres são muito mais interessantes não temos a menor dúvida, mas quais seriam os motivos que fogem a imaginação das pessoas e que você descobriu ?
Lizard - As mulheres são mais sensíveis do que os homens. Não tenho dúvida de que se o mundo fosse governado por mulheres, estaríamos muito melhor do que estamos. Mulher pensa muito mais em certos aspectos do encontro do que o homem - os afetivos. Eu tinha um amigo que dizia que devia haver um seguro contra as asneiras que se diz quando se quer comer uma mulher. É uma reflexão profundíssima, em minha opinião. Se você pretende seduzir, você tem que tirar o melhor de si, e, às vezes, esse melhor se expressa em palavras que, mesmo beirando a irresponsabilidade, são bonitas. Vão fazer levantar calor, fazer sorrisos surgir, essas coisas. Todo homem, no ato da sedução, se torna um poeta e um mentiroso - daí a necessidade de um seguro. Mas, convenhamos: mulher que se arrepie com ironias e se sinta aquecida por frieza é doida. Dessas eu quero distância.
TPM - Doida não, pode ser apenas e simplesmente masoquista...
Lizard - Freud certa vez fez uma experiência interessante - enfiou uma varada prá valer num sujeito (um major do exército austríaco, veja só...) que afirmava adorar apanhar. Só que fez quando o sujeito não estava esperando, e o cara teve uma reação de dor semelhante à que todo mundo tem. Foi aí que o velho doutor desenvolveu a teoria (exposta num artigo chamado 'Sobre o fetichismo') de que a prática fetichista é a idealização - que sempre se dá no plano consciente - de uma vontade reprimida. E, visto que a repressão é o ato fundador da personalidade, masoquista não é doido, assim como eu não sou doido e nem vocês. A sedução não envolve dor, mas coloca a perspectiva futura da realização da fantasia, que pode envolver dor, ou cosquinha, ou uma coleira de brilhantes (acho que é a fantasia de todas vocês - fugir com um joalheiro). Continuo dizendo - sedução é uma arte, não pode ser fria nem ácida.
TPM - Alguns consideram o Lagarto um tremendo baunilha. Um cara que entra na sala apenas pra zoar e tirar sarro da cara das outras pessoas. Conta aqui, no ouvidinho da gente, quais são as opções do cardápio de fantasias desse bichinho.
Lizard - Acho essas classificações uma bobagem. Prá começo de conversa, eu nunca disse prá ninguém que era BDSM, escravo, mestre (prá falar a verdade, mestre eu era dez anos atrás - atualmente tou encaminhando o pós-doutorado...) ou qualquer coisa assim. Eu me declaro um imoralista ou, como gosto de dizer, um sadeano. Não vou encher a paciência de ninguém explicando em detalhes o que vem a ser isso, mas posso dizer que não tem nada com a postura erótica que o sujeito adote. Essa é um problema exclusivo do sujeito e de seu(s) parceiro(s). Imoralismo é um compromisso pessoal e intelectual. É uma postura. Tremendos imoralistas? Vladimir Nobokov e Michel Foucault; o próprio Sade. Os imorais dos setecentos. Isadora Duncan. Elvis Presley. Gente que diz o que as pessoas NÃO querem ouvir e, sinceramente, alguns dos 'fetichistas' que conheci nos últimos anos estão entre os mais renitentes 'inouvintes' que conheço.
TPM - Os "inouvintes " seriam uma espécie de adeptos do modismo de se dizerem alternativos até na sexualidade ?
Lizard - É. Também. Mas diria que são as pessoas que assumem (até sinceramente, isso não é importante) comportamentos desviantes, mas são conservadores em todo o resto. São os defensores da moral e dos bons costumes, do bom comportamento e da sociedade ordeira. São os que querem mandar os desviantes para um campo de concentração, visto que estes são uma ameaça para os filhos deles.
TPM - Quem conhece o seu site descobre um outro lado do Lagarto - um cara mais engajado e até certo ponto diferente dos demais. Em relação a preservação da sua imagem particular (no site tem foto dele - gente, é um gato !!! vale a pena conferir em www.desejo.com/lizard), você não tem medo de ligar a sua imagem a assuntos considerados de "comportamento desviante" ?
Lizard - Tem haver com o que eu disse antes. Minha posição é individual e responsável. Eu não a imponho a ninguém, mas não me envergonho dela e a defendo onde quer que seja, diante de quem for. Este é o primeiro e, (no meu caso) maior "comportamento desviante": sair do trilho da mesmice. Meu problema com certas pessoas é o manto de 'seriedade' que elas pretendem vestir (o que é problema delas) e impor aos outros (aí vira problema meu). Minha proposta prá isso - e aí, maninhas, num tem jeito, eu tenho de me expor - é gozar É o ato desviante por excelência! Isso tanto significa alcançar o orgasmo quanto rir e se divertir. Significa que você pode ser sério - e eu sou muito!!! - sem ser chato. Te mostro, qualquer hora dessas, minha coleção de fotografias de 'piercings' ... feitas com anelos de lata de Coca diet. Vum'vê: é desculpa prá fotografar barrigas de mulher? É... Eu adooooro barriga! Aí gozo eu. Como nunca vi mulher que não goste de ser fotografada, ela goza junto, e muito. É desculpa prá fazer as mulheres rirem? Lógico - quem não gosta de rir é doente, e as mulheres que conheço são prá lá de boas de cabeça, e riem até não poder mais. As fotos, em geral, saem bonitas. Modéstia à parte, o Lagarto sabe mexer com uma Mavica. Aí gozamos de novo - vendo as fotos. E estamos ambos chateando certas pessoas que acham que furar 'imbigo', grelo ou saco as torna revolucionárias. Aí estamos gozando... o mundo de bobalhões que acham são fetichistas porque têm o grelo ou o saco furado! Eu, hein??? (por sinal, tou precisando de um anelo desses, dourado - alguém me arranja um???)
TPM - Você falou que adora fotografar as mulheres e, presumimos nós aqui, que em situações bastante particulares. A maioria das mulheres, no entanto, tem medo de se expor, de deixar um "rastro" comprometedor, que em mãos de ex-parceiros pode se tornar um objeto perigoso. Como você contorna essa situação ?
Lizard - Eu não peço certas coisas a todo mundo. Quando você chegou a estabelecer uma relação de confiança com sua parceira, pode pedir o que quiser que ela, em geral, concorda. A questão é conquistar a confiança. Os homens geralmente gastam o documento em qualquer biboca, as mulheres, não. Pode-se até levar para a cama uma mulher que se conheceu meia hora antes, mas de alguma maneira, isso terá acontecido porque o cara ancorou a confiança dela. Preservar a confiança é outra fase, e certas coisas só são consentidas quando a confiança é preservada.
TPM - A questão da confiança, principalmente entre parceiros que se conheceram na rede, é algo bastante delicado. Exige um certo tempo, um certo relacionamento, até que se estabeleça. Mas sob outro aspecto, as múltiplas perspectivas que se apresentam fazem com que as relações sejam mais rápidas, mais urgentes e variadas. As mulheres sairiam perdendo nesse jogo? Ou perdem os dois, homens e mulheres?
Lizard - Os dois perdem, e isso não é culpa da Net, acontece em todos os espaços de encontro. As relações, hoje em dia, me parecem mais superficiais, e prá mim o problema reside ai. Não tenho nada contra relações variadas, mas tenho contra as urgentes e rápidas. Nessas as duas pessoas perdem o que de melhor tem uma situação de relação - você aprender com o outro, sentir-se um diferencial na vida dele, sacar a importância que isso tem e, daí, crescer como ser humano. É o caso de entrar numa roubada, por exemplo. Você entra e você sai, mas nunca é o mesmo, depois. Mas, prá isso, precisa de tempo.
TPM - Você não está oficialmente listado como um dos fundadores do Movimento BaGGoz (se bem que no BaGGoz nada é muito sério ou oficial...), mas temos percebido a sua participação intensiva em todas as atividades que o movimento vem promovendo até agora. Logo, de uma forma ou de outra, o seu nick está diretamente associado ao BaGGoz. Por que você se uniu a esse movimento, coisa que relutou tanto a fazer - e acabou não fazendo - em relação ao SoMos ?
Lizard - Bem, eu não me 'uni' ao BaGGOz, como nunca me dispus a ter qualquer ligação com o SoMos. As pessoas gostam de círculos fechados e primazias, e eu acho que ficar estabelecendo círculos 'fundadores' e o resto é o primeiro passo prá discriminação. Espero que os seis caras que figuram como 'fundadores' não estejam se sentindo diferentes do resto de nós, a choldra, por causa disso. (Estarei enganado?..) E tem um problema adicional - gosto do Masok, do Fist, do Fidel, dos chopes no Vilarinho, e se fosse aceito no grupo, teria de sair dele. Como Groucho Marx, não entro em clube que me aceite, e, assim, prefiro continuar sendo convidado. Quanto ao SoMos, não tenho nada contra eles, e até tenho certa admiração pela tia Babs, mas se fosse entrar para alguma religião, com certeza seria macumbeiro, e não BDSM. E tá cheio de sacerdote naquele lance.
TPM - Epa ! Pera lá... aquilo lá não é o clube do bolinha, tem as meninas também. E depois a proposta do BaGGoz não é fechar-se em si mesmo. Pra falar a verdade o que eles querem é uma boa desculpa pra se encontrar e tomar chope toda semana. Digamos que como observador externo, como convidado, você teria mais liberdade para criticar e sugerir passos futuros. O que você poderia sugerir ao pessoal do BaGGoz como próximas ações? ( meninas fiquem quietas ! nada de ficar "soprando" pra pedir uma "festa ativa", até porque acho que o Lagarto não iria participar...)
Lizard - Bom, gosto das meninas, claro, mas a questão é se elas gostam de mim... Se você descobrir, me conta... Quer uma sugestão? Diga pros caras tirarem aquela lista de 'fundadores', porque depois alguém pode ter a idéia de pintar uma Santa Ceia com o Fist no lugar de Jesus e o Carcereiro como São João Evangelista. Pro BaGGoz continuar sendo interessante, tem de ser isso aí que você disse - um grupo de beberrões (mesmo que os beberrões, como a Helena e o Tutore, só bebam guaraná diet) e desbocados muito elegantes (aliás, o Vilarinho é o próprio charme em forma de bar...). De fato, eu não iria numa 'festa ativa'. Numa festa, é até possível. Vamos combinar uma.
TPM - Olha, essa última aqui foi sugestão de alguns companheiros da sala (depois dizem que nós mulheres é que somos curiosas...tá bem !). Os meninos (gostaram dessa? vamos ver se ganhamos um jantarzinho caprichado de algum deles...) querem saber como é que você faz pra conseguir entrevistar cara-a-cara todos aqueles mulherões. Eles dizem que convidam pra jantar, oferecem coleiras (mas não de brilhantes !) ou as costas pro chicote e nada... Gastam o latim e o grego e nada... Qual o segredo da língua do Lagarto ?
Lizard - Os caras perguntaram isso??? Não acredito... Não consigo imaginar o Carcereiro ou o Greco perguntando esse tipo de coisa prá esse humilde Lagarto... Acho que as mulheres (ou algumas delas...) é que tão querendo saber qual é a minha e jogam a culpa no colo dos caras. Sacanagem!!! Mas vou responder - o que o Lagarto não faz prá ver um rostinho feminino sorridente... É que nem o lance das fotografias, de falamos antes: não faço nada - pergunto. Se a dita topar, perfeito. Adoro conversar, e entrevista é conversa. E conversa é quase sexo - ou, às vezes, é até mais que sexo. Gozamos ambos (em todos os sentidos...). Se a dita não topar (e já aconteceu), paciência. É como passar um cantada - às vezes cola, mas na maioria das vezes, ganhei resfriado. Mas se pudesse dizer alguma coisa séria em torno disso... Bem... Nunca faria a tolice de oferecer coleiras ou costas prá chicote. Prefiro descobrir que ambos queremos a coleira ou arranhar-me as costas. O que demanda tempo e demanda uma relação. Fetichismo é a idealização de uma vontade escondida, minhas caras 'Mulheres do BaGGOz'. O desafio é trazer a vontade até a luz, e não escondê-la em 'dungeons' ou suítes temáticas de motel. Quero que todas vocês tenham essas coisas em casa, com todas as luzes acesas. Diria que minha principal diferença com boa parte dos desviantes que conheço vai por aí - eles querem ser 'normais', e eu não estou interessado em normalidade.
TPM - Bem amigas, nós vamos ficando por aqui, enfiando nossa viola no saco porque fugir da normalidade é um grande desafio. E viver o fetichismo à luz do dia, sem dungeons ou suites temáticas de motel, é mais complicado do que simplesmente tc e dar beijo na boca. Pra quem topar o desafio... ligue pro IBAMA e procure por esse Lagarto ! Ou entre na madrugada da fetiches do zaz. Até a próxima !