|
Seção: Registro Histórico
004: Manifesto do Movimento BaGGoz
2000
|
Série de Entrevistas e outros Registros Históricos do BDSM.
Enviado pela Helena.
|
Manifesto do Movimento BaGGoz
Hoje, (algum momento do ano 2000), nesta cidade do Rio de Janeiro, nós, cidadãos livremente reunidos em torno desta sagrada távola, houvemos por bem, sem nada que nos compelisse ou forçasse, a levantar, pela primeira vez, a bandeira de nossos ideais.
Junto com a bandeira, os mastros também se levantaram, e mastros eretos, seguiremos, eles e nós, nós e eles, em direção ao glorioso amanhã, pois nada como o amanhã depois da noite bem bebida, fornida e dormida.
Nosso movimento, muito embora surgido do seio de um pequeno grupo disposto a exercer livremente todas as formas de prazer sensual e hedonista, convencionais ou alternativas, não pretende permanecer fechado em si. Nós, pequeno grupo de dominadores e submissas, rainhas e escravos, voyeurs e exibicionistas, fetichistas de todos os credos, baunilhas de todos os sabores, jogadores de RPG e comedores de hamburguer de frango, pretendemos ampliar cada vez mais nosso círculo, trazendo um número cada vez maior de libertários e liberados ao nosso convívio, pois dois alternativos só não fazem o bacanal. E quanto mais gente participar, menor ficará a conta da bebida.
Nosso movimento, muito embora sintonizado às preocupações em torno de questões ligadas às formas alternativas do livre exercício do prazer sensual e hedonista, e engajado na reflexão e na luta por tal liberdade, não pretende, cá entre nós, aprofundar nada. Pretende, sim, usar o discurso libertário como desculpa para iniciar a conversa de cerca-lourenço e acabar, no final, onde todos gostamos de estar e gostaríamos de não sair.
Declaramos nós, os famosos poucos mas elegantes, a partir de hoje criado o Movimento BaGGoz
(B)atemos, (a)panhamos e (G)ozamos.
Esses três conceitos resumem e expressam perfeitamente nossos ideais, altas bandeiras e mastros eretos.
- Bater, em maiúsculas, pois dominador, dominadora e atletas sexuais em geral têm sempre o ego maior do que o normal;
- apanhar, em minúsculas, pois submisso, escravo e podólatras, independente do sexo, e do tamanho do sapato, têm sempre que dançar miudinho;
- Gozamos, em maiúsculas, pois, independente da posição, lado do chicote ou resultado da partida de RPG, gozar é nosso objetivo último.
Nos movem altas metas, e em direção a elas levaremos todos nossa bandeira e nossos mastros eretos. São objetivos do Movimento BaGGoz:
- Despedaçar todos os complexos e variados laços que prendem o homem e a mulher a seus antigos valores, para só deixar subsistir o laço das cordas, muito embora aceitemos também como válidos as fivelas de cintos e coleiras, assim como os elos das correntes e os nós das pontas dos chicotes;
- Afogar (em bebida alcoólica, de preferência, mas também em refrigerante diet e água mineral - tem gosto prá tudo) os fervores sagrados do êxtase religioso, a seriedade devocional e o dogmatismo dos portadores do Dom revelado (sabe-se lá por quem e por quê), juntamente com seus auto-nomeados profetas.
- Democratizar o acesso de todos os interessados às fontes de informação, esclarecimento e sacanagem, sendo que esta última deverá ser o instrumento privilegiado por todo membro (social e anatômico, seja masculino ou feminino) para abrir as primeiras duas.
- Promover a igualdade afetiva e anatômica entre membros e não membros, não levando em conta as diferenças que não as livremente estabelecidas entre as partes - sociais e anatômicas; as diferenças anatômicas também poderão ser contornadas, pois, desde que de livre contrato entre as partes, ninguém tem nada com isso.
Verificamos que por toda parte se expandia uma complexa divisão da comunidade alternativa em classes distintas, numa escala graduada de condições e concessões cheias de segundas e terceiras intenções, disfarçada de seriedade.
Como forma de barrar, enquanto é tempo, todas as formas de falsa seriedade, resolvemos dar o grito de alerta que é pelo sexo que se segura o casamento (o que, dizem alguns homens e mulheres, dói muito) e se largam as estribeiras (o que, dizem alguns homens e mulheres, não dói nada).
Assim, fica vedado a qualquer membro do Movimento BaGGoz:
- Levar-se excessivamente a sério, tendo em vista o fato de que um tipo que se dispõe a participar de um tal movimento não pode ser lá muito sério.
- Levar o Movimento Baggoz excessivamente a sério, tendo em vista o fato de que um movimento que aceita tal tipo de gente em seu seio não pode ser lá muito sério;
- Vedar o acesso de qualquer tipo de gente ao movimento, seja o tipo alternativo, baunilha, religioso, metido a engraçado ou intelectual, loura, paulista ou ex-membro do grupo SoMos.
- § único - Este artigo não se aplica aos chatos, sejam estes do tipo alternativo, baunilha, religioso, metido a engraçado ou intelectual, loura, paulista ou ex-membro do grupo SoMos.
- Estabelecer regras de quaisquer tipos, destinadas a regular relações, conversas, caráter das piadas, gosto musical ou sexual, tamanho ou material dos chicotes, coleiras, cordas e correntes ou cor da lingerie.
- § único - Este artigo não se aplica às regras femininas, permitidas mensalmente, às regras de futebol, permitidas toda vez que dois times entrarem em campo, e às regras do motel, que deverão ser observadas sempre que dois ou mais membros se utilizarem de um, para que o gerente não chame a polícia e (devido aos latidos dos submissos e submissas mais entusiasmados), a carrocinha.
| Voltar | Site do Carcereiro |