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Seção: Registro Histórico
003: Papo Séri:o)
2000
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Série de Entrevistas e outros Registros Históricos do BDSM.
Enviado pela Helena.
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Papo Séri:o)
Olá pessoal !
Estamos abrindo um novo espaço no BaGGoz para receber todos vocês.
O Papo Sério pretende ser um momento de parada para ouvir o que os amigos têm a dizer. Sabe aquela hora, no meio do chope, que o assunto fica meio sério por um minuto ou dois ? Pois é, estamos nesse intervalo.
A partir de agora está inaugurada a tribuna livre do nosso movimento, com artigos, depoimentos, entrevistas, contos... O que os amigos quiserem compartilhar. Não nos responsabilizamos por opiniões, controvérsias, polêmicas ou seja lá o que for que vocês não gostem aqui.
Quem quiser ouvir esse Papo Sério que leia até o final, pense por um minuto ou dois e levante um brinde.
Saúde aos amigos que mostraram a cara !
Vamos começar com uma conversa entre o nosso amigo Greco e o Glauco Mattoso, uma das figuras lendárias do SM no Brasil. Vale a pena conferir o papo que rolou entre esses homens e a forma de abordagem de diversos assuntos. Agradecemos a transcrição enviada pelo Greco, assim como a autorização para publicar. Um abraço, companheiro.
O desafio de se reconhecer SM
- Greco - Falar de SM é falar de infância.
Glauco Mattoso - É lógico. As primeiras experiências são muito marcantes. Eu vejo a coisa do retrospecto, não pelo lado psicanalítico ou cientificista, eu gosto da reminiscência como uma forma de auto cognição, de auto conhecimento. Quanto mais a gente exercita a memória pregressa - essa volta à infância - mais a gente clarifica o por quê gostamos de algumas coisas.
- Greco - Eu me lembro, particularmente como podólatra, que eu tinha desejo por pés antes mesmo de saber o que era sexo. Eu não tinha a menor noção para que servia uma ereção, sentia tesão, e já era uma coisa associada aos pés. A única coisa que eu sabia é que tinha vergonha e tinha que esconder aquele tesão. Era uma coisa que não era certo e eu tinha que esconder. Aconteceu com você também?
- Glauco Mattoso - Aconteceu, aconteceu. Eu acho que por volta dos meus cinco anos, mais ou menos, já tomei consciência de que tinha atração por pés, embora não estivesse claro se era pé masculino ou pé feminino. Inclusive, até hoje, eu mantenho esta dubiedade como uma coisa válida. O pé, na verdade, não têm sexo. Quer dizer, a sociedade convencionou que o pé feminino têm que ser menor, mais delicado, mais bem cuidado, maquiado não é? Mas isto são convenções sociais, a rigor nem o tamanho, nem qualquer outra característica diferenciaria o pé feminino do masculino. Isso já seria uma forma de exercer a pansexualidade através do pé, ou seja, é um fetiche que simboliza um desejo sexual não definido. Como você mesmo lembrou, a gente não estava ainda na puberdade, não tinha uma ereção, não tinha uma noção clara do que era um orgasmo mas a gente tinha o desejo - o desejo já era uma coisa clara.
- Greco - E a sensação de que não era uma coisa muito aceita, de que era uma coisa meio estranha.
- Glauco Mattoso - Exatamente, a gente não via ninguém fazer nada com o pé do jeito que a gente imaginava. Desde cedo nós aprendemos que o pé é uma parte desprezada do corpo, que só serve para apoiar o peso, para estar em contato com o chão, portanto sujo. Quando criança, a coisa que mais a gente ouve é vá lavar este pé sujo, porque andamos descalços. A partir daí pensamos que se o nossos pés são sujos, o dos adultos também são e não servem para outra coisa a não ser chutar, no caso do futebol. Temos uma noção bem precoce disto, e quando batemos em alguém - da forma mais violenta - é com o pé que batemos.
- Então, vemos que além de ter uma característica de, vamos dizer assim, descuido, ele ainda tem uma característica de agressividade implícita. Se manifestamos algum tipo de desejo, de carinho com relação a esta parte do corpo, estamos nos rebaixando, humilhando ou degradando. Essa noção é muito intuitiva e talvez seja por isto que agente esconda. A gente têm a noção, desde cedo, que é uma coisa que deve ser escondida e não possa ser revelada, que as pessoas não possam perceber claramente que você gosta daquilo por que seria admitir que você é inferior ou deseja se inferiorizar. Eu acredito que seja por ai a noção de clandestinidade da podolatria - essa noção precoce.
- Agora, houve uma experiência concreta que realmente me levou para a podolatria. Aliás, foi uma experiência que eu não contei no meu livro O Manual do Pedólatra Amador - Glauco Mattoso. Editora Expressão, 1986 - porque muitos pensam que o livro é estritamente auto biográfico e na verdade não é, como todo trabalho literário, você fantasia e de certa forma romantiza certas passagens e aí, inventa alguma coisa.
- Houve um episódio na minha infância, que realmente aconteceu, e me marcou. Eu morava num bairro muito periférico, onde a maior parte das pessoas não tinha a chance de ir à escola, eram crianças de rua. Naquela região nós éramos os únicos que morávamos em sobradinhos geminados e que colocávamos os filhos na escola com uniforme - aquela coisinha toda. Eu, como já era deficiente visual, logicamente não fazia o que os outros garotos faziam. Não jogava futebol, não andava de bicicleta, evitava fazer coisas que pudessem me machucar, expor meu olho. Eu já tinha consciência que devia proteger meus olhos e, ao mesmo tempo, não tinha equilíbrio suficiente por que eu enxergava mais ou menos de um olho e não de outro. Com isso, me concentrei nos estudos e virei um CDF - e o CDF é sempre o pó de arroz, aquele que é visado para ser maltratado.
- Eu estava numa faixa de idade na escola que os moleques menores eram muito sacrificados pelos mais velhos. Na saída da escola eu era sempre cercado por uma turminha que tinha uma dupla inveja - inveja porque eu era um estudioso, o primeiro da classe, e inveja por que eles mesmos nem estavam na escola. Já estavam na vida, vendendo alguma coisa para ajudar a família e tal, as famílias nem os colocavam na escola. Então, eles me pegaram para Cristo e numa destas situações tive de ser o palhacinho do pessoal. Eles levaram a gente, e não era só eu não, para um terreno baldio, longe da vista dos adultos, formaram uma rodinha e obrigaram a fazer todo tipo de palhaçada. A coisa foi engrossando até virar realmente um abuso sexual.
- Antes do abuso, propriamente dito, haviam certas humilhações. Na porta da escola vendiam aquele quebra queixo, um doce feito de coco extremamente grudento, duro, que você tinha que morder e puxar. Não era todo dia que eu comprava, porque minha mãe nem sempre me dava dinheiro; quando eu conseguia comprar era realmente aquela coisa de todo mundo pedir um pedacinho. Naquele dia, eu tinha comprado e estava saindo da escola com o quebra queixo e a turma me cercou, me levou pró terreno baldio. Eu estava na faixa dos 7 ou 8 anos mais ou menos, e essa turma estava na faixa dos 12, 13 anos. Eles eram bem maiores e tinham muito mais malícia, por que já praticavam o sexo, já tinham o seu troca-troca, aquela coisa toda. A primeira coisa que fizeram foi tomar o meu quebra queixo, morderam um pouco e depois o jogaram no chão, na poeira. Pisaram em cima e me fizeram catar com a boca, descolar das solas dos tênis.
- Essa experiência, entre outras palhaçadas que eu tive que fazer antes de ser abusado sexualmente - essa preliminar - se constituiu na porta de entrada para o sexo, a minha podolatria começou assim. Vamos dizer que anteriormente já estava latente, idealizada alguns anos antes na infância, e se concretizou daquela forma. Dali para frente todas as minhas fantasias passaram a envolver humilhação, abuso, ou seja, poder controlando o ato sexual, que na verdade, é tudo o que acontece na sociedade. O ato sexual está sempre envolvido por uma relação de poder, ainda que seja uma relação disfarçada socialmente. Não necessariamente tão crua e cruel como foi comigo, ou como hoje eu idealizo e fantasio, mas ainda assim é sempre uma relação de poder, portanto uma relação sadomasoquista.
- Greco - Prazer e poder, um suplanta o outro?
- Glauco Mattoso - Existe uma etimologia, o verbo suplantar significa justamente você ficar por cima de alguém no sentido figurado. É você superar alguém fazendo alguma coisa, você suplanta alguém. No sentido concreto, entretanto, suplantar é colocar debaixo da planta do pé, ou seja, "supplantare" no latim era você colocar o pé em cima do pescoço ou do rosto da pessoa dominada, vencida. O gesto da vitória. Quando o gladiador fazia isto, ao mesmo tempo em que estava com o pé em cima do vencido, ele olhava para a platéia e, a platéia com o polegar, decidia se ele deveria ser poupado ou morto.
- Greco - Veio deste fato, ocorrido na infância, seu tesão por pés masculinos?
- Glauco Mattoso - Exatamente! No meu caso, o pé masculino se tornou mais presente em minhas fantasias. Não se tornou uma coisa obsessiva ou exclusiva, mas se tornou mais presente na minha fantasia por causa, justamente, da maior agressividade que existe entre os meninos. Eu estava numa situação ambiental que favorecia este tipo de coisa, onde a presença feminina era inexistente.
- Greco - Também acho que a mulher não têm este comportamento agressivo que os homens naturalmente apresentam.
- Glauco Mattoso - Não têm! Então, a partir daí, as minhas fantasias começaram a girar em torno de situações mais cruéis, mesmo tendendo para a tortura. Embora tenha sido um adepto da tortura mais no sentido voyerista. Eu diria que, para mim, a tortura é um estímulo para a libido insuperável. Eu sempre pesquisei a tortura e até publiquei um trabalho a respeito. Vejo a tortura como uma situação de poder levada as últimas conseqüências, ou seja, você passa a ter direito entre aspas, sobre a vida e a morte de quem esta à sua mercê.
- Greco - A tortura seria a forma máxima de poder sobre outra pessoa.
- Glauco Mattoso - Exatamente! Então, a tortura ela serve muitas vezes pela sua potencialidade, ela não precisa ser concretizada. A capacidade que o torturador tem de torturar já é o bastante para que a vítima se entregue, capitule e, ao capitular, fazer tudo o que o carrasco quiser, ainda que ele não precise torturar.
- Greco - Isso vem de encontro com um artigo que eu li recentemente, sobre uma cartilha do exército americano. Parece que há uma espécie de manual para orientar as forças de repressão sul-americanas, ensinando-as como torturar. Um determinado trecho diz que o torturador nunca deve ameaçar sua vítima de uma coisa que ele não possa de fato fazer. A vítima tem sempre que ter a certeza de que o torturador pode, realmente, fazer o que esta dizendo.
- Glauco Mattoso - Exatamente! Isso foi colocado em termos técnicos do ponto de vista militar e, nada mais é do que a transposição de um conceito filosófico. E o sadomasoquismo é basicamente uma situação de dominador/dominado. A escravidão que envolve uma relação sexual desse tipo, é uma relação de posse. Agora, existe um lado mais interessante disso tudo, a inversão da polarização entre o dominado e o dominador fazendo com que um se coloque no lugar do outro. No momento em você está na condição de dominado, inclusive se satisfazendo com isto, você também está imaginando como se sente aquele que está dominando. Ou seja, você se projeta, por isso ninguém é só sádico ou só masoquista - você é sadomasoquista - porque você esta também vivendo o papel do outro.
- Greco - O falecido Cosam, quando bolava uma tortura, experimentava antes nele mesmo, para poder avaliar o que ele estaria causando. Era como se ele precisasse realmente saber com que intensidade aquilo estava sendo sentido pela pessoa que ele torturava.
- Glauco Mattoso - Eu vou ainda mais longe nesta conceituação. Pelo fato de eu ter um problema de nascença - o glaucoma, que me levou recentemente à cegueira - fui me exercitando numa espécie de conformismo. Não é fácil ter que se conformar com uma coisa que está por vir. Então, eu fui me exercitando numa prática existencial que me levou até o lado místico, o lado transcendental do sadomasoquismo, um lado que eu poderia até definir como mágico.
- A partir desta experiência consegui adquirir um aprendizado sobre a própria condição humana. A minha inferioridade, do ponto de vista físico, me levava a tentar compensar esta deficiência sendo superior aos outros em outras coisas. Claro que isto teria que ser no plano intelectual, já que fisicamente eu não tinha condições. Assim, eu desenvolvi várias potencialidades intelectuais. Isso me levou a uma compreensão muito interessante, que você na procura desta compensação, está sempre numa espécie de corda bamba. Uma linha tênue que separa um lado do outro lado, dois contrários, você está sempre entre dois contrários, o Yang e o Ying. O sadomasoquismo é apenas uma faceta dessa dualidade que esta presente em tudo. Ou seja, nós não somos apenas sadomasoquistas, nós somos mocinhos e bandidos, somos esquerdistas e direitistas, bons e maus, caridosos e impiedosos. Temos uma ambivalência constante, permanente, a questão é que a maior parte das pessoas não têm consciência disto.
- Importante, também, não é apenas adquirir consciência disto, é conviver em paz com isto. Transformar numa coisa não apenas suportável mas prazerosa. Teoricamente se especula muito sobre a condição humana, sobre a capacidade do homem ser essencialmente bom. Sempre fugindo do mal em direção ao bem, fugindo da barbárie em direção a civilização, do lado animalesco do sexo em direção ao amor. No entanto, o homem não pode ser sempre isso, fugindo de uma coisa para ir para outra . Para que ele seja mocinho não precisa abdicar da sua condição de bandido, nem pode.
- Na verdade, quando se especula sobre isto, o que se quer são super homens ou marcianos, não são seres humanos. Esta história do ser humano tender para a santidade ou a igualdade, ou a perfeição ou a justiça, é falsa. Nós não atingimos a perfeição. Então, o que nós podemos fazer - eu acho que é interessante fazer - é ir vivendo e tentando tornar menos traumático esse relacionamento com o lado negro, o lado maldito, obscuro, vamos dizer o lado.... negativo da existência.
- Greco - Viver sem juízo de valor é difícil.
- Glauco Mattoso - Sem juízo de valor, exatamente o que acontece quando estamos na infância. Não temos muita censura, então exercitamos melhor a questão do sadomasoquismo. A questão da crueldade na criança, porque ela tem um instinto maléfico muito acentuado, convive com a capacidade dos atos de maior ternura, amor e desprendimento. A criança é o ser menos egoísta que existe, no entanto, pode ser também o mais sádico, mais cruel e mesquinho.
- Temos que admitir isto como uma coisa natural da condição humana, no entanto, conviver com isso não é fácil. É semelhante ao que acontece com o sadomasoquismo, no meu entender a única maneira de você exercitar isso dentro da sexualidade. Esta contradição geral da existência, sintetizada no aspecto do sadomasoquismo, eu considero como tendo algo de mágico. Uma espécie de canal, de válvula para direcionar toda uma força, uma energia que poderia ser muito destrutiva para mim mesmo e, no entanto, eu consigo converter isso em fonte de prazer e satisfação, e até de realização do ponto de vista psicológico. Um espaço onde eu posso transformar uma condição de sofrimento, de inferioridade, de discriminação, em algum tipo de compensação, em algum tipo de prazer.
- Greco - O sadomasoquismo sempre é uma forma de compensação?
- Glauco Mattoso - Sempre é. O que acontece se eu encontro pessoas, vamos dizer mais frágeis do que eu, ou mais dóceis e submissas ? Eu automaticamente monto em cima, exercito de alguma forma o meu sadismo. Mas, se eu me deparo com alguém mais mandão do que eu, mais autoritário, eu me humilho, eu me submeto.
- Agora muitas vezes, eu desperto em alguém, que aparentemente é frágil e dócil, algo que ele mesmo não sabia que tinha - seu instinto sádico. Por que? Porque eu deixo a pessoa perceber que muitas das suas frustrações decorem do fato de nunca ter chance de humilhar alguém. Da necessidade impositiva de ficar agüentando, engolindo sapos, sem poder desforrar em ninguém. Então, às vezes, eu deixo que ela libere seu lado sádico em mim e me sinto absorvendo uma parte da energia dessa pessoa. Aquela idéia do guerreiro canibal que ao comer uma parte do inimigo absorvia sua bravura.
- Eu cheguei a desenvolver, inicialmente por brincadeira e como meio sacana de usufruir o meu fetiche, uma modalidade de massagem que eu chamava de "massagem linguo-pedal". Uma espécie de adaptação da acupressura, ou da reflexologia da planta dos pés, dos dedos para a língua, ou para a boca. Através desse ato descobri ser possível canalizar algumas energias positivas ou negativas das pessoas, então comecei a desenvolver uma espécie de dialogo sensual. Eu deixava a pessoa, enquanto eu estivesse massageando os pés dela, ir dialogando, me confidenciando alguns problemas, algumas frustrações e, especialmente, algumas humilhações que tivesse sofrido, ou sofresse no seu dia a dia. Durante todo esse processo a pessoa estaria sentindo a minha manipulação e, às vezes, ocorria uma sintonia fina de energia. O meu masoquismo funcionava como um pára-raios para algumas dessas energias que estão, vamos dizer assim, pesando nas pessoas. E quando elas descarregam em mim estão descarregando na posição de sádicas. No entanto, quando elas absorveram essas energias, o fizeram na condição de vítimas, de masoquistas inconscientes. Então, eu faço com que elas se tornem sádicas conscientes para liberar uma energia negativa que elas acumularam num masoquismo inconsciente.
- Greco - Isso me parece muito difícil para as mulheres.
- Glauco Mattoso - Para as mulheres certamente é mais difícil porque a condição cultural da mulher é de inferioridade em relação ao macho, em todas as culturas. Então, realmente, é difícil para a mulher assumir o seu lado sádico, mas em compensação quando ela assume, desforra. Desconta o que ela e todas as outras mulheres agüentam. Parece que se torna uma representante da espécie e quando resolve espezinhar, ela realmente espezinha.
- Greco - Não me parece muito fácil encontrar mulheres assim, que conseguem se libertar das amarras sociais e exercerem a plenitude do seu prazer, compartilhando com o outro.
- Glauco Mattoso - Eu encontrei. Agora, não pode esquecer que não se trata de encontrar a mulher assim ou assado. O que se trata, o que a gente deve procurar, é que ao encontrar uma mulher disposta a se conhecer melhor e conhecer situações envolvendo SM, devemos despertar nela algumas coisas. Não se vai encontrar a mulher tirana pronta, o que se vai é oferecer oportunidade para que ela exerça a sua tirania e se descubra como tirana.
- É o que Masoch fez. Acho que a obra dele é o exemplo mais claro disso - a Wanda, de "A Vênus das Peles", inicialmente tinha pudor, tinha escrúpulos de maltrata-lo, de chicoteá-lo. Com o tempo ela foi percebendo que ele estava totalmente a mercê dela, então ela foi se tornando cada vez mais cruel até chegar num ponto em que superou as expectativas de Masoch. Porque ele conseguiu despertar nela o verdadeiro sadismo - não apenas obrigar o escravo a fazer aquilo que ele quer, mas sim o que ela quer, mesmo que seja contra a vontade dele.
- Essa é uma outra etapa do aprendizado, o escravo aprender a fazer algo que inicialmente o contraria, mas que depois ele percebe que tem que se sacrificar e fazer aquilo, porque afinal de contas, ele vai estar fazendo pró prazer da pessoa que o domina. É uma espécie de ida e volta, onde o prazer dele vai ser posterior - ao perceber que satisfez a vontade da dominadora - então ele vai se satisfazer como masoquista. Mas é um aprendizado passar por um sacrifício desses. As pessoas, às vezes, não são capazes porque envolve certos limites. No momento que o escravo faz isso, mesmo que seja numa relação de sacrifício, sem sentir prazer nenhum, depois que passa aquilo, quando ele rememora, quando volta à tona aquilo numa forma de fantasia recordatória, aí ele se excita.
- Greco - E aí passa a desejar que se repita.
- Glauco Mattoso - Ele passa a desejar que isso aconteça de novo. Mesmo que, ao acontecer de novo, ele já esteja sem tesão e faça aquilo broxando, mas depois vai voltar a fantasia da excitação, isso prova o que ? Que muitas vezes o SM é uma coisa idealizada, que você faz mais de uma forma masturbatória do que propriamente no momento real, no momento concreto do ato. Mas isso também é legal.
- Greco - Essa idealização é fundamental para um sadomasoquista.
- Glauco Mattoso - É ! Ele é capaz de fazer qualquer coisa se estiver envolvido numa relação de dominação e submissão. Aí pouco importa o que seja feito, inclusive pode até acontecer como no filme O Império dos Sentidos, onde existe a castração e a morte. Pode-se vencer todas as barreiras, e você sabe que depois das barreiras do nojo e da dor, a última e principal barreira é justamente a da morte. É onde o escravo permite que o senhor ou senhora o mate ou o obrigue a se suicidar. Eu acho que esta categoria de SM é mais rara, mais difícil.
- A categoria do SM fetichista, aquele que elege ou descobre uma determinada cena e procura sempre reprisar essa cena, é mais comum. Eu acrescentaria ainda duas outras categorias - o SM não fetichista e o SM voyerista, como aquele que pode praticar aquilo que gosta ou se compras, apenas, em assistir. E esse assistir é uma coisa muito abrangente. Assistir significa não apenas assistir ao que os outros fazem, mas recordar o que ele mesmo fez ou antecipar aquilo que vai acontecer.
- Greco - A frustração no meio SM é grande, como se pode resolver isso?
- Glauco Mattoso - É lógico que o desejo nem sempre encontra uma forma imediata de ser saciado. A frustração do desejo é uma coisa que pode tornar a pessoa traumatizada ou inferiorizada mas, aí ela tem que ter a consciência de que, no momento em que ela se reconhece desejando ela já tem a oportunidade de saciar seu desejo. Quando ela não tem a oportunidade de realização, ela tem que se conformar com essa frustração e isso também é uma forma de relação sadomasoquista. Ou seja, tanto na privação quanto na satisfação do desejo, existe a possibilidade de exercer o sadomasoquismo. O que a maioria das pessoas não percebe é que todos nós somos sadomasoquistas e estamos praticando de alguma forma uma relação sadomasoquista.
- Greco - O que diferencia é que a maioria das pessoas não tira prazer disso, não converte em prazer uma situação qualquer.
- Glauco Mattoso - Exatamente! Só aqueles que são praticantes do sadomasoquismo é que estão tirando algum proveito. O problema é que a maioria dos praticantes do sadomasoquismo também não têm consciência de que aquele ato transcende em muito a mera satisfação da libido. Aquilo, na verdade, esta canalizando uma energia existencial muito importante da qual depende o próprio equilíbrio da pessoa.
- Greco - E a sociedade?
- Glauco Mattoso - Uma das contradições é esta : a sociedade como está estruturada, a civilização ao ponto como ela chegou, ela é extremamente sadomasoquista nas suas relações. A estrutura piramidal da sociedade, a estrutura de classes, onde existe sempre uma hierarquia, uma base dominada e uma elite dominante, essa estrutura é extremamente sadomasoquista só que a sociedade não assume isso. Ostensivamente apregoa, preconiza e estabelece sob a forma de códigos, que os seres humanos são todos iguais e que devem buscar a igualdade, que a lei é igual para todos e que todos devem ter as mesmas oportunidades e etc, etc... Então o ser humano vive numa espécie de contradição, numa espécie de engodo achando que ele deve perseguir um ideal igualitário quando na prática ele esta vivendo o tempo todo uma relação sadomasoquista.
- Greco - O futebol é uma forma de relação sadomasoquista aceita pela sociedade, por que todos gostamos de poder humilhar o vizinho ou amigo que é torcedor do time perdedor, é uma humilhação aceita.
- Glauco Mattoso - Você citou um ótimo exemplo. O ato imediato entre às torcidas qual é? É a zombaria, é você ridicularizar a torcida rival e acho que a melhor expressão disso é o olé, o olé é uma das coisas mais humilhantes que existe. O olé de um jogador sobre o outro e o da torcida. A sociedade envolve esta contradição. As pessoas estão o tempo todo exercendo seu papel dentro do mecanismo social, no entanto, a maioria não percebe que esta vivendo uma relação sadomasoquista. O sadomasoquista que se reconhece como tal é um privilegiado, por que já percebeu isso e está traduzindo para sua vida sexual.
- Greco - Mas se reconhecer como sadomasoquista nem sempre significa ser consciente.
- Glauco Mattoso - Alguns participantes do jogo sadomasoquista são os mais inconscientes de todos. São aqueles que estão tendo a oportunidade e nem sequer avaliam a grandiosidade daquele momento, como aquilo é bonito, aquele gesto de descontar, de ir a forra. E existe a contrapartida também, o ir a forra é gostoso como combustível do SM, mas muitas vezes, o combustível mais gostoso ainda é quando o dominador esta abusando do dominado que por sua vez não têm como ir a forra. Eu me lembro de uma frase de Orwell, no livro 1984, em que uma personagem diz no momento em que está torturando a vítima - que já havia passado por várias torturas e percebido que não tinha mais escapatória, que do ponto de vista psicológico não dava para tentar enganar o torturador - nesse momento, o torturador diz para a vitima:
- " Você quer uma imagem do futuro? Imagine uma bota pisando um rosto. E imagine que aquela bota sempre estará ali e aquele rosto estará sempre ali para ser pisado. Essa é a imagem do futuro da humanidade."
- Eu me considero um privilegiado porque na minha trajetória, eu consegui transformar toda a minha condição de inferioridade, de deficiente e mesmo as minhas frustrações de artista - porque evidentemente eu não estou entre os maiores expoentes da literatura nacional ou da música. Eu obviamente fiquei no meio do caminho, mas essa condição também me tornou privilegiado por que eu aprendi a conviver com essa inferioridade, usufruindo, tirando algum prazer disso.
- A maior contradição é que, justamente quando eu estava por baixo, engraxando botas com a língua, limpando uma sola com a língua, na condição mais inferiorizada, eu descobri a possibilidade da satisfação plena. Toda aquela energia sádica do meu opressor estava sendo absorvida por mim, de tal forma que aquilo ia se convertendo numa força interior.
- É claro que eu desenvolvi essa capacidade, o que não significa dizer que todos sejam capazes de faze-lo. Ser capaz de canalizar, pela via da submissão, os seus desejos e transformar algumas frustrações em satisfação, e com isso se equilibrar, é um processo muito difícil.
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