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Seção: Registro Histórico
D001: Desviante porém conformista ?
Fev/1999
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Série de Entrevistas e outros Registros Históricos do BDSM. Esse ensaio foi escrito por Lizard, em março de 1999, com a colaboração de Roscoe e RamXerox. Inédito e resgatado agora no meu baú de memórias, trago a público pela atualidade do tema, ainda hoje. |
Desviante porém conformista? Eu, hein??? Prefiro fazer da sacanagem prática política!
Recomendo a todo mundo que leia os jornais de domingo. A extensão engordada das edições dominicais obriga os jornalistas a se desdobrarem para encontrar temas que dêem mais colorido ao modorento dia dos leitores. Um dos truques mais usados é convidar profissionais de peso de outras áreas para escrever colunas. Eu sempre vou primeiro nelas (depois de ler a seção de futebol, lógico...), pois lá se encontram jóias - como a que me dei o trabalho de transcrever abaixo. Não lembro o nome, que sumiu num de meus milhares de arquivos bêbados, ou talvez morto num dos diversos crashs com que Orlando, o Temperamental (meu lap-top), costuma me brindar.
"De nada adiantou o austríaco Leopold von Sacher-Masoch ficar indignado. [...] de famoso escritor e amante inventivo, foi mesmo rebaixado ao nível de patologia sexual. No livro Vênus em Peles, [...] ele descreve sua fantasia de ser dominado e chicoteado por uma mulher vestida [em] um casaco de peles. No final do século XIX, esses atos foram classificados como perversão [...] sexual e denominados masoquismo. As práticas sexuais usadas por aqueles que sentem prazer em dominar ou em infligir dor física ou emocional receberam o nome de sadismo devido aos romances do Marquês de Sade, escritos um século antes.
[...] O estereótipo do sádico como criminoso brutal se aplica a uma minoria. [...] a grande procura de chicotes, algemas, correntes, assim como suítes com jaulas em motel, grades de ferro e vários outros apetrechos, visa aumentar o prazer sexual sem machucar. Embora não seja rara a dor, ela não é essencial, e pode estar inteiramente ausente. A base do sadomasoquismo é o antagonismo entre domínio e submissão, poder e desamparo. É uma prática sexual tão comum que o psicanalista inglês Anthony Storr pergunta se por acaso algum casal de amantes que não tenha brincado de alguma versão do velho jogo em que um domina e o outro e subjugado, ou que não tenha atormentado um ao outro de brincadeira, fingindo dar um beijo e recuando?
No sadomasoquismo há um consenso e uma negociação entre as partes, de forma que um dos parceiros pode interromper o jogo a qualquer momento. [...] os que usam a dor durante o sexo se sentem ansiosos para que a sua atuação proporcione prazer ao outro. Numa pesquisa de 1990 com universitários da cidade de São Paulo, 48% dos homens e 41% das mulheres relataram haver tido relação sexual onde dor e prazer estavam presentes. [...] em 1954, o pesquisador americano Alfred Kinsey já havia registrado que mais da metade dos homens e mulheres reagiam eroticamente a mordidas. Não muito diferente dos vários animais.
Apesar do masoquismo ser mais associado às mulheres, devido ao treinamento de submissão e passividade que sempre receberam, vários estudos mostram a inversão dos papéis sexuais no sexo. Os prazeres masoquistas fazem parte das fantasias de homens e mulheres em proporções praticamente iguais, principalmente ser amarrado e subjugado durante as atividades sexuais. E uma pesquisa conclui que ambos os sexos preferem que o outro seja o sádico. Nem Batman escapa. No filme em que Michelle Pfeiffer interpreta a Mulher-Gato, vestida de borracha colada à pele para lembrar uma dominadora, ele é marrado por ela a uma cama. Os produtores cortaram a cena[...]
Na verdade não há um consenso geral a respeito das causas do sadomasoquismo. Que dor e prazer são sensações intensas e as vezes a fronteira entre os dois não é marcada com nitidez, todo mundo sabe. Alguns, como a historiadora americana Riane Eisler, acreditam que, como a erotização da violência e da dominação foi central na construção social do sexo, a maioria de nós se excita, em graus variados, com essas fantasias. Para outros essa prática sexual reedita sensações de prazer e poder relacionadas com conflitos no início da vida. Há ainda os que defendem a idéia de que, se dessa forma o prazer aumenta e não faz mal a ninguém, não é necessário explicações e deve-se aceitar com naturalidade"
(Regina Navarro Lins, psicanalista. Jornal do Brasil, 07/03/1999. Pela transcrição e grifos, Lizard)
Gostaram? Eu adorei. Quase chego a concordar com Vlad, o vampiro das madrugadas de domingo: disse ele, certa vez, numa visita ao [chat ]"Fetiches" [do Terra], que "quem não pratica não pode entender".
Sei lá se a doutora Lins concordaria com o Vlad. O fato é que, carregando a obra completa de Freud na algibeira, tenta despir as práticas SM da aura de marginalidade que geralmente a sociedade dita normal lhes atrela. Mas tenta também, de modo não muito sutil, dar uma no cravo e outra na ferradura. Ora, que um tapa ou algumas palmadas sempre foram práticas usuais, isso até meu pai e minha mãe, honrados pequeno-burgueses casados por 45 anos devem saber; que as "suítes SM" estão se tornando comuns, também não é novidade nenhuma. Desde que "Tiazinha" passou a arrancar pêlos de adolescentes imbecis diante das câmaras de TV, num programa considerado "família", um promissor mercado de produtos ligados ao SM (aliás, já plenamente estabelecido no EUA - basta olhar a Internet) aponta no horizonte. Mas observem os trechos que destaquei no texto da doutora Navarro (será que ela leva - ou gostaria de - algumas borrachadas do parceiro?... Informações para o Lagarto...)...
Tudo bem. Afinal, a boa e velha sociedade de mercado funciona assim mesmo. Mas daí a considerar que dor e violência, ainda que teatralizadas são elementos pertinentes a toda e qualquer relação sexual e que prazeres SM são completamente normais, é de um simplismo no mínimo hilariante. São "normais" quando naturalizadas pelas palhaçadas de uma "Tiazinha" qualquer, quase às 8 horas da noite.
Não estou querendo dizer, por outro lado, que sejam "anormais", o que seria inverter a tolice. Gosto muito de usar, nesses casos, o termo "alternativa". Ou seja, algo que existe, e que pode ser, no mínimo, apontado como exemplo de que a diferença existe. A questão é fazer saber ao praticante, ou ao aspirante a praticante, que não existe uma norma do que é aceitável ou inaceitável, quanto ao prazer.
Tudo bem que uma boa maioria já pensa assim, mas ainda hoje, em alguns estados do EUA, a "sodomia" é considerada crime passível de prisão. Pra quem não sabe, por sodomia entenda-se desde o homossexualismo até relações entre um adulto e um adolescente - ainda que consentidas e consensuais. Tanto lá quanto em diversos outros lugares. Outras questões extremamente complexas dizem respeito à prática de "pedofilia" (conceito nunca muito bem definido), ao consumo de pornografia (idem) e a prática e consumo de prostituição. É muito provável que mesmo os desviantes bem resolvidos apresentem restrições, em variados graus, a qualquer uma dessas práticas. Mesmo assim, são todas tão estabelecidas quanto o SM ou a fixação em pés femininos. A diferença é que, enquanto lamber um pezinho é considerado apenas "um troço esquisito", transar com uma garota de 15 anos pode ser prática criminosa. Tal aura de criminalidade acaba constituindo uma espécie de "tecido protetor". E aí voltamos ao terreno da "normalidade". Ou pior, da "moralidade". Apenas para cair de novo na armadilha de que se tenta fugir, por exemplo, nas salas de chat da Internet.
Não cabe aqui levantar questões em torno das práticas chamadas pedofilia, pornografia e prostituição - até porque não quero apanhar e nem acordar amanhã com uma divisão "panzer" estacionada na minha porta. Essas coisas são complicadas por envolverem questões éticas e morais muito caras à cultura ocidental, ou seja, nossa cultura. Mas elas existem, e tratá-las tão-somente no âmbito do código penal apenas reforça o tal "tecido protetor" e cria espaço para equívocos.
Por outro lado, se varremos a mídia, encontraremos manifestações de práticas sexuais consideradas imorais e até mesmo criminosas por todo lado. O que o é [ou era] programa "infantil" da apresentadora Xuxa senão - como, num momento de brilhante inspiração o classificou o jornalista Fausto Wolff - um "programa de televisão para pedófilos"? Meninas de treze anos, pesadamente maquiadas e vestindo roupas que lembram trajes de alunas do ginásio (a analogia é clara, não é?...) saltitam e rebolam em meio a um ambiente onde se misturam infantilização e erotização*.
Alguns especialistas com quem já conversei afirmam, numa espantosa manifestação de racionalização cafajeste, que se trata da "tendência a erotização dos meios de comunicação". Pode ser, mas não vejo muita diferença entre um "concurso de dança da garrafa" para meninas de sete anos de idade, promovido por um apresentador de TV, e um site de pornografia infantil na Internet**. Outro ponto interessante é o fato de que já exista, em canais por cabo no EUA, um farto mercado de prostituição (isso já está apontando por aqui também...). Ora, TV à cabo não é Internet - pode ser controlada e tais coisas poderiam ser coibidas. Mas não são.
(* RamXerox - esse cara diz que não tem nada melhor do que uma noite com uma garota de 16 anos - protesta veementemente: você não passa de um falso moralista despeitado, Lizard! É ótimo que existam as Paquitas, elas constituem uma reserva de mulheres saudáveis que constituirão, depois que passarem os três anos de "prazo de validade", esposas bonitinhas para jogadores de futebol e cantores de pagode. Você e o Wolff reclamam porque nenhuma vai casar com vocês.
** Comentário de RamXerox: Claro que existe, seu panaca! O Gugu Liberato ganha um caminhão de dinheiro com isso, o que o transforma num empresário. O sujeito que põe um site na Internet não ganha porra nenhuma, o que faz dele um criminoso.)
A questão é que existe um divisor de águas e regulador chamado "mercado", e tal entidade tem sido elevada ao status de divindade, nos últimos quinze anos. Na época do velho marquês, ou em tempos mais próximos, era relativamente fácil distinguir o que era o quê, coisa que está se tornando cada vez mais complicada pela intervenção dessa tal entidade em redes de relações, onde, em princípio, não deveria estar. Era relativamente fácil, no século XIX, apontar o que era erótico e o que era pornográfico (esses conceitos não só já existiam como eram amplamente usados, a partir de meados do século). E, principalmente, a instância (ou "topos", pra quem preferir um termo mais pernóstico...) onde tais tipos de noção e relação poderiam ser aplicadas.
Querem ver um exemplo? Não há nada mais erótico do que a cena de uma festa num prostíbulo, descrita no romance "Lucíola", de José de Alencar. No entanto, esse romance, leitura "para adultos", jamais seria utilizado em aulas de gramática por um professor de ginásio. A mesma coisa poderíamos dizer que se dá com o romance "Lolita", de Nabokov, uma obra brilhante. Todo celeuma em torno dessa acontece com relação à adequação do tema e questões relativas à moral, mas ninguém, nem mesmo o autor, teria qualquer dúvida de que "Lolita" não é leitura para crianças.
Moralismo? Acho que não. As crianças devem ser preservadas em função de questões objetivas: a fisiologia delas não é preparada para relações sexuais e, do ponto de vista da estrutura da personalidade, a sexualidade infantil se dá por vias e meios incompreensíveis para um adulto. Historicamente, todas as culturas criam uma "linha defensiva" que preserva as crianças de idade tenra da lubricidade adulta, seja por regras religiosas, seja por normas jurídicas - via de regra, ambas as coisas. A sociedade ocidental moderna não é diferente.
Com adolescentes a coisa muda, e se torna mais difícil de debater, visto que "criança" é (por mais que esperneiem os antropólogos), uma noção que pode ser observada fora da instância sócio-cultural (um xavante de seis anos de idade é, fisicamente, a mesma coisa que um alemãozinho). Adolescentes, não. Este é um conceito inventado, no século XIX, que guarda relação com as mudanças acontecidas, a partir do século XVIII, no modo como a produção se estrutura nas sociedades européias. Quer se queira, quer não, o surgimento de uma personagem social chamada "adolescente" relaciona-se com a estruturação da força de trabalho nas sociedades capitalistas.
Esses conceitos todos relativos a fenômenos historicamente datados, se modificavam conforme modifica-se a estrutura das sociedades. Até o momento em que interfere o "mercado". Isso sempre existiu, diriam alguns. Correto, mas em épocas recentes, devido as transformações na estrutura do sistema, o problema da extração de mais-valia relativa ampliou-se até o paroxismo. Até produzir a tendência de que todas as relações sociais passam a ser reguladas pelo mercado. Admito que possa haver um pouco de exagero aí, mas, por outro lado, como explicar o movimento que torna práticas antes consideradas "imorais" em aceitáveis? Só mesmo necessidades que são fortes o suficiente para erodir os limites estabelecidos pela sociedade, e aumentar a velocidade de transformação dos costumes.
Por isso, um pouco de atenção é saudável. E por "atenção" quero dizer "espírito crítico", no que diz respeito a ter à mão instrumentos que permitam a análise de certas coisas sem a interferência dos "véus do preconceito". Pelo menos, nos perguntemos - podemos ser contestadores sem sermos cafajestes? Podemos ser imoralistas sem sermos imorais?
E podem práticas individuais, como o SM, assim como diversas outras práticas, tais como fetichismo, quando praticadas conscientemente, avançar ao limites da contestação individual e privada à ordem estabelecida? Parece que sim. Os livros de Alphonse Donatien François, marquês de Sade, chegam a tal limite, e são talvez as mais radicais reflexões em torno do poder já escritas. Sade coloca-se numa longa linhagem de "imoralistas" que contestam a ordem estabelecida por meios pouco convecionais. Existiram outros - Giacomo Casanova, Restiff de la Bretonne, Bocage e, mais recentemente, Vladimir Nabocov e Salman Rushdie. Todos escrevem sobre sexo e violência, mas como meio transverso de falar sobre poder e moral estabelecida. No caminho, aproveitaram para chamar atenção sobre o fato de que todo tirano é um moralista arraigado.
Contestação privada? É lógico que isso existe, e pode ser colocado ao nível de ação política. É sobre isso que se deve pensar - relações de poder e moral. O sexo não é simplesmente uma função orgânica ou uma "forma de descarregar energias", É um fator regulador de relações individuais e coletivas, um gerador de comportamentos que se espalham por toda a sociedade. Exercer a sexualidade é uma forma de exercer o poder, e contestar a sexualidade estabelecida é uma poderosa forma de contestação - basta lembrar do "amor livre" dos anos setenta. Assim, nada tenho contra a "Tiazinha", só desconfio muito de figuras que são, por trás da aparência "moderna", expressões de um discurso conformista materializado. Ora, a moça não passa da "mulher ideal" em trajes de couro (couro falso, claro...): não fala e não tem um papel ativo. Ela apenas rebola e obedece as ordens de um apresentador "mauricinho". Isto não é avanço algum. Diria que é apenas o surgimento de uma versão SM do Clodovil.
Sejamos todos sádicos, se nos der prazer, e se não atrapalhar a vida dos outros. Lambamos pés e nos vistamos de couro. Mas não façamos envergonhadamente, como se fossem apenas manifestações de uma patologia. Pratiquemos. Praticar é abri espaço e abrir espaço é uma forma de ação política. Sejamos heróis, sejamos marginais, como disse Hélio Oiticica.
A alternativa é comprar uma máscara e um chicotinho de plástico e... participar do mercado.
Em tempo... Essa coisa foi escrita quando a onda da "Tiazinha" e do "fetichismo família" estava no auge. Desde então, o liquidificador pós-moderno da mídia encontrou outros temas e a "dominadora" anda meio sumidinha...
Desviante porém conformista? Eu, hein??? Prefiro fazer da sacanagem prática política!