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Seção: Registro Histórico
008: Entrevista: Fidel
Março de 2008
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Série de Entrevistas e outros Registros Históricos do BDSM. Entrevistas coletadas na comunidade orkut
BDSM - Início Difícil, tópico "A ID pergunta... Alguém responde..." | |
fonte utilizado nos títulos: Flat Brush - baixe aqui | |
Bom dia, amigos e amigas fetichistas e amantes/adeptos/simpatizantes do BDSM. Fui convidado a participar como entrevistado deste tópico nesta comunidade e cumprimento o moderador desta comunidade pela iniciativa. Minha história no BDSM nada tem de diferentre de muita gente que um dia descobriu que esté tipo de comportamento erótico/sensual, para alguns, e bizarro, anômalo, pervertido sexualmente para outros.
Para mim é apenas uma prática comum a um grupo de pessoas, de diferentes matizes sociais, culturais e de preferências sexuais, que descobriu uma maneira diferente de sentir e vivenciar o prazer de uma relação a dois (ou mais) parceiros iguais.
Parabéns ao Podo pela entrevista. Quero dizer que ele e sua companheira Mazinha, são uma das referências atuais da prática SSC da podolatria no Rio de Janeiro.
Bem, não quero me prolongar. Estou à disposição para responder às perguntas que forem aqui postadas até o dia 24 de março, domingo portanto, as quais pretendo responder o mais prontamente possível propondo-me a responder a todas as questões que sejam estritamente sobre o assunto BDSM.
biscuit}_F
Boas vindas
Seja bem vindo, Dono.
Acho que essa será uma belíssima oportunidade que todos da comunidade terão de aprender e descobrir um pouquinho mais sobre a opinião e experiência do Sr. nesse maravilhoso mundo BDSM.
Já estou quietinha no meu lugar para poder "ouvir" tudinho.....oba!!!!!!
Sua, todinha Sua
{biscuit}_F
Aprender?
Ohhhh minha doce cadelinha.... não tenho a pretensão de ensinar nada... acho que o conhecimento existe aqui neste caso como um produto de troca. Todos têm um pouco para passar aos outros.... Mas, fique aí quietinha sim e pronta para dar uma mordida naqueles que pegarem mais "pesado" com o seu dono!!!!! rsrsrsrs
E já que sentou na cadeira do dragão, vamos que vamos, começando a perguntar aqui pelo lado mais prosaico e ainda não abordado desta conversa:
Você acha que existe alguma diferença ostensiva no BDSM praticado em São Paulo e no Rio? Porque pensando aqui que praia e chicotes são algo complicado de se conciliar...rs...mas também é preciso lembrar que o Rio sempre teve fama de ser mais aberto e exposto à sensualidade e suas derivações que SP. Você acha que a fama corresponde à realidade? E ainda no bonde do bairrismo: você acredita que existe algo como um BDSM tropical (ou tropicalizado? ou tropicalista?)? Em que a "importação" das práticas você acha que alterou seu conteúdo, se é que isso ocorreu?
Saudações, amigo!
Saudações, amiga!
Como você não disse se é só Dominador, SW ou sub, mas tem uma escrava que já acusou presença (bem-vinda também, menina!), vou perguntar genericamente:
Como você se define enquanto Dominador, na hora de ir à "caça" de uma sub potencial? O que mais te atrai numa presa? E o que te faz correr rapídinho pra bem longe dela?
E se você já foi submisso alguma vez, ou é SW, o que a experiência ajudou na hora de liberar a personalidade do Dom?
E, você curte dominar pela internet ou só ao vivo?
Mas, voltando um pouco à história do BDSM Rio de Janeiro, é necessário afirmar que ele tem muita tradição e possui muitos nomes importantes que fizeram (e ainda fazem) a história do movimento BDSM no Brasil. Mas, naquela época, no final do século passado, a internet começava a ter suas primeiras salas de sadomasoquismo, e foi a partir daí que o movimento renasceu. Deixou as páginas de revistas como o Fórum Ele e Ela e outros menos votados e passou a ser socializado pela internet.
Aos poucos, nós cariocas fomos nos conhecendo melhor e surgiram os primeiros grupos reais que se reuniram através dos encontros informais do pessoal das salas de bate papo da internet. Primeiro – que me recordo – foi a sala da Mandic, depois o ZAZ – antecessor do Terra e, finalmente, as salas da UOL, que hoje são as mais acessadas (creio). Depois vieram as primeiras festas... Hoje, muitos destes "jurássicos" ainda fazem parte da galeria real do BDSM-Rio (rsrsrsrs).
Atualmente, o BDSM Rio comporta manifestações diversas, está presente nas festas que se realizam frequentemente e nos encontros que continuam informais, mas cada vez com maior numero de pessoas.
Sobre Dominação Psicológica...
Como encara essa dominação? faz uso dela? E os resultados, já se deparou com alguma submissa que não se deixa dominar?
saudações a todos membros da comunidade, em especial ao entrevistado!
*naara
´Bora pra prosa...
Acredito eu, que o Rio tem muitas particularidades em relação a prática BDSM: somos mais informais, mais "críticos", menos ritualísticos. Até mesmo a "nossa história", como grupo, reflete isso... Seja na "descontinuidade" do envolvimento de algumas pessoas, seja nas ações propriamente ditas como "grupo".
Do tempo do Baggoz aos encontros atuais promovidos pela Gordinha RJ, consigo perceber uma popularização do BDSM. No entanto, sentia também uma menor reflexão sobre práticas e comportamentos (uma espécie de homogeinização das posturas...).
Na sua opinião, perdeu-se conteúdo ao ganhar-se em divulgação?
Mas, pelo menos nós conseguimos manter unido um núcleo que se conheceu nos primórdios (os tais "jurássicos") e que, de certa forma, tem servido de consciência crítica para muitos que vieram, viram e venceram o medo da relação BDSM.
Acho que ganhamos em divulgação, crescemos numericamente, expandimos além das fronteiras do isolasionismo sadomasô e incorporamos parceiros de outras tribos como os góticos e os GLS.
Mas não deixamos, porém de aprimoramos o conteúdo na medida que nos conhecemos melhor. Mas, a vulgarização do movimento é algo inevitável e, infelizmente, temos que saber conviver com isso.
(Acho que isso vai escandalizar muita gente... rsrs)
O imprescindível é o prazer dos parceiros... um prazer que pode vir de muuuitas maneiras.
E mais, vejo a relação BDSM como uma via de mão dupla; batemos, mas gozamos, juntos!
Nós Batemos, elas Apanham e todos GoZZamos.
Nosso movimento, muito embora sintonizado às preocupações em torno de questões ligadas às formas alternativas do livre exercício do prazer sensual e hedonista, e engajado na reflexão e na luta por tal liberdade, não pretende, cá entre nós, aprofundar nada. Pretende, sim, usar o discurso libertário como desculpa para iniciar a conversa de cerca-lourenço e acabar, no final, onde todos gostamos de estar e gostaríamos de não sair.
Declaramos nós, os famosos poucos mas elegantes, a partir de hoje criado o Movimento BaGGoz
(B)atemos, (a)panhamos e (G)ozamos.
Bater, em maiúsculas, pois dominador, dominadora e atletas sexuais em geral têm sempre o ego maior do que o normal; apanhar, em minúsculas, pois submisso, escravo e podólatras, independente do sexo, e do tamanho do sapato, têm sempre que dançar miudinho; Gozamos, em maiúsculas, pois, independente da posição, lado do chicote ou resultado da partida de RPG, gozar é nosso objetivo último.
Vou pegar esse fio pra próxima perguntinha ao Fidel...
Como vc vê o preconceito (ah! e não venha me dizer que ele não existe... pq vc sabe que existe) dentro da comunidade BDSM, discriminando - principalmente - homens submissos e switchers?
E ainda, como vc se coloca frente a práticas Femdom (tipo feminização e inversão) tendo já passado por uma fase como submisso?
Um pouco de história
Acabei de reler a entrevista do Carcereiro, no link que ele disponibilizou para o deleite da galera. Perguntas bem humoradas e inteligentes, e respostas idem, com habilidade de não responder questões mais delicadas com bom humor e gentileza!
Impossível deixar de lembrar os tempos do Vilarino, no Centro da cidade, com o alvinegro Ramos sempre nos recebendo com aquele bom humor cativante. Éramos um grupo pequeno e coeso, onde não faltava bom papo, etilicamente regado (com moderação), muito riso e pouco siso e, naturalmente, farta troca de idéias entre os mais experientes praticantes do BDSM e os novos adeptos desta fantasia que ganhava o sotaque carioca mais real.
Entre outros, estavam lá o Carcereiro, a Helena, a Julienne (festejada depois de seu retorno da Europa), o Viralata, o Greco (o nosso querido e o maior jurássico de todos), o Fist, a Alska, a Borboleta, o Lobo (agora Borg), a Rosa, o Toni, a Vanessa (nossa mascote) e sua amiga que não me recordo o nome, e outros que me perdoem por não citá-los aqui também.
Em determinado momento, fomos provocados pelos mais novos adeptos do movimento carioca a aderirmos aos grupos institucionais que tentavam aliciar o pessoal do Rio com o discurso de unificação do BDSM nacional.
Depois de algumas conversas e discussões às vezes calorosas, rechaçamos a idéia da nacionalização) argumentando que seria a institucionalização de um movimento espontâneo e sem necessidade de um "comando" que ditasse as regras do nosso comportamento. Daí o nascimento do BAGGOZ, termo criado pelo Carcereiro lembrando a todos que Batemos, mas Gozamos e que aperfeiçoado por todos com um formato "leve e lúdico" que, parafraseando o Carcereiro, contrapunha muito bem do fetichista puro, que não mistura a fantasia com o sexo.
Bem, mas isso é coisa de história, não quero me prolongar para não ser (mais) chato....
Vamos (tentar) responder às perguntas da Helena...
Respostas
Quanto ao preconceito – O praticante do BDSM sofre vários tipos de preconceito. O primeiro e mais visível é o da sociedade em geral, que marginaliza quem pratica, rotulando-o de pervertido social.
Mas o preconceito maior é aquele que está dentro do próprio movimento e que reflete de forma mais cruel o que acontece na própria sociedade naturalmente machista. Daí a conotação pejorativa que tem a maioria dos homens submissos em primeiro lugar, depois dos switchers. E esse preconceito é ainda ampliado para os homossexuais em geral. Deveríamos todos abraçar a bandeira do ecumenismo social e tratarmos com respeito a opção sexual de cada um.
Quanto à prática Femdom – Como eu disse no in[iço da conversa aqui, meu lado feminino é sub. Partindo disso, vejo com naturalidade a prática Femdom, a humilhação que se transforma em real prazer quando uma bela mulher consegue inverter os papéis com um homem (mas sem exageros...rs). Quando essa rela;ao se estabelece costuma acontecer aí um jogo muito interessante e super prazeroso entre a Domme e o switcher.
Os resultados são imprevisíveis e, em geral, muuuuito bons!!!
O problema é que, por causa do preconceito e do medo de serem desmascarados, alguns dominadores clássicos negam a condição de switcher e mascaram essa prática. Isso confunde as pessoas e prejudica mais ainda a imagem daqueles que ficam dos dois lados do chicote sem medo e sem preconceito.
Agora outra pergunta antes que o tempo se esgote:
Não faz muito tempo nosso grupo - aí no Rio - começou a organizar Plays fechadas. Percebi (não sei se vc compartilha essa visão) que entre os frequentares criou-se um clima de maior camaradagem e diria até mesmo fortaleceu laços de amizade ou criou novas.
Lembrei também de outros que nos visitavam eventualmente, como aquela menina de Minas que morava em Sampa e que se casou com um alemão.... lembra??? Rsrsrs
Bem, quanto à questão das amizades e as festas fechadas... Já as festas fechadas pressupõem que sejam realizadas por pessoas que se conhecem e que mantenham algum tipo de vínculo. Alguém toma a iniciativa e elabora (sozinho ou com a ajuda de outros parceiros) a lista de participantes.
Em geral, procura-se juntar pessoas que, pelo menos, tenham afinidades. Nem todos participantes precisam ser amigos, mas é importante que a maioria o seja. Isso porque a play é um encontro entre amigos que têm em comum a prática do BDSM e onde existe maior confiança. Bem, a partir daí serem fortalecidos os laços de amizade é apenas uma conseqüência...
Ahhhhh.... e eu tb quero os arquivos do Baggoz...
Sei que já saí da cadeira, mas não vou tirar a resposta do Fidel, apenas, como tenho hoje o espaço mais completo para a prática do BDSM e outros fetiches, existe hoje dois grupos que organizam plays fechadas na nossa KZA.
Um grupo jurássico e outro mais novo.
Tem muito em comum e variações não menos interessantes.
Vejo que a própria liturgia é interpretada de maneira diferente.
Agora, complementando a pergunta sobre plays fechadas:
Fidel, qual a diferença pra você de estar a sós com sua escrava, estar em uma festa e estar em uma play fechada?
E, convenhamos, nesta categoria de "fetichistas" está a grande maioria dos praticantes atualmente no Rio de Janeiro.
Quanto à diferença de estar com a escrava a sós, na play e nas festas.... bem.... há uma grande diferença.... rs
A sós a intimidade é bem maior. É também o momento mais oportuno para testar técnicas novas e novas práticas e limites. Eu acrescento ainda outra maneira que é a realização de sessões num grupo mais restrito. É muito bom você convidar outras pessoas do meio para sessões junto com sua cadela submissa... com mais uma, duas, ou no máximo mais três pessoas que vão estar juntos para compartilhar da prática BDSM.
Nas festas, a postura é mais social, de confraternização, de conhecer pessoas e de incorporar novos adeptos ao convívio pessoal ou do grupo a que você mais se identifica. Além disso, as performances nas festas são de naturezas muito variadas e de motivações mais diversas ainda, prevalecendo o mero caráter exibicionista.
Nas plays, a situação é bem diferente, a começar pelos motivos que expus na resposta acima à Helena. Existe maior cumplicidade entre os participantes da play. Mas o fato de serem realizadas por e para pessoas que tenham afinidades e um certo grau de conhecimento entre si , não exclui a possibilidade de serem apresentados novos participantes. É até saudável para o grupo. E, nesse ambiente, acontece o que considero essencial nas plays que é a troca de conhecimentos. É o momento de você mostrar o que sabe, de apresentar suas qualidades como Dominador(a), Mestre, ou sub, cada um na sua competência. Enfim, a cumplicidade é muito maior
Tanto nos Encontros como nas Festas conhecemos pessoas novas (não estou colocando a internet, pois acho que conhecer mesmo precisa ter um olho no olho, não sou muito adepto ao virtual), e nas festas descobrimos novos talentos (me sentí o próprio Raul Gil).
Agora, a mais uma pergunta:
Fidel,
Quantos anos você tinha quando você teve o seu primeiro pensamento fetichista?
Como foi?
Depois veio o fascínio pelas roupas exóticas, principalmente no carnaval... Mas tudo começou a fazer sentido quando descobri outras pessoas que pensavam e sentiam a mesma coisa, especialmente lendo relatos SM em algumas revistas na década de 80. Depois veio a internet e com ela a democratização das informações...
A perguntinha .. Vc disse que iniciou sua vida no BDSM como sub, qual foi o momento mais difícil para vc como sub, se que teve algum? e já que teve essa experiência e agora o chicote está na sua mão,rsr, vc teria algum conselho a dar para uma iniciante..?
hayal
Quanto a conselhos, minha amiga, isso é mais difícil. Acho que o mais importante é você ser transparente em tudo que faz. Seja objetiva e não deixe seu eventual perceiro na dúvida sobre o que você quer e o que pensa sobre a relação BDSM. Assim fica mais fácil.
AGRADECIMENTO
AMIGOS E AMIGAS,
Gostei muito de poder estar aqui respopndendo às perguntas que me foram feitas. Agradeço a todos pela generosidade de elaborsrem perguntas inteligentes e que me deixaram muito a vontade para responder a todos.
Estou apresentando meu amigo Nathan, um dominador carioca que já há algum tempo vem se destacando na comunidade BDSM não só do RJ, mas de outros estados também. Tenho certeza de que ele será mais uma pessoa a contribuir para esclarecer dúvidas e a lembrar fatos marcantes de nossa trajetória.
Um abraço a todos e... boa sorte, Nathan.