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Seção: Registro Histórico
003: Entrevista: Mestre Nathan_RJ
Março-Abril de 2008
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Série de Entrevistas e outros Registros Históricos do BDSM. Entrevistas coletadas na comunidade orkut
BDSM - Início Difícil, tópico "A ID pergunta... Alguém responde..." | |
fonte utilizado nos títulos: Flat Brush - baixe aqui | |
Obrigado, velho comandante! (Agradecendo ao Fidel, pela deixa no final da entrevista dele).
Fiquei sabendo através do convite do bom amigo Fidel que essa comunidade estava fazendo entrevistas. Proposta bem interessante! Fiquei contente em ver aqui não só a entrevista do Fidel, que certamente é uma das maiores figuras do BDSM brasileiro, mas também do querido amigo Podo_RJ, que está virando figura do BDSM Internacional. Entre esses cobras, sou no máximo uma "eminênciazinha" parda... kkkkk
Pelo que entendi (por favor, me corrijam se estiver errado), devo responder as perguntas postadas aqui até o próximo domingo, dia 30 de março.
Bom, agradeço ao gentil convite do Fidel, e me coloco a disposição. Só gostaria de dar uma sugestão, de que de alguma forma esse tópico tivesse uma identificação mais evidente de que abriga essas entrevistas tão bacanas. Eu mesmo demorei um bocado para achar onde estavam!!! Quem sabe simplesmente mudar o nome do tópico para "Entrevistas" já seria o suficiente. ;)
Abraços, e aguardo as perguntas!
Nathan
Mestre Nathan_RJ, prazer em conhecê-lo.
Bom, fui ao teu perfil para saber um pouco sobre voce, ja que não o conheço......e desculpe, a intromissão, mas vi que completou recentemente 4 anos de relação BDSM, com tua submissa.....minhas primeiras perguntas....
Como tornar possivel, que uma relação seja tão duradoura assim, num meio que sabemos ser de alta rotatividade e cheias de contratempos?
Voce vive uma relação 24/7? Vivendo ou não, acha possivel isso e como fazê-la sem prejuízos para ambos?
Você tem razão em relação a rotatividade do BDSM, é muito raro vermos uma relação BDSM que dure vários anos. No meu caso, posso dizer o seguinte: No começo, minha vanessa{N} era tão somente minha submissa, sem nenhum envolvimento baunilha. Com o passar dos anos, acabamos desenvolvendo também um relacionamento baunilha, e hoje além de minha sub, ela também é minha namorada.
Sinceramente, acredito que isso ajudou e ainda ajuda muitíssimo para que nossa relação SM dure tanto, uma vez que pode-se dizer que ela se enquadra no tipo "rebelde" de escrava, e sempre representou um grande desafio de dominação para mim. Penso hoje que muitas questões importantes, do nosso relacionamento SM, foram superados pela força do amor mútuo que temos.
Posso estar enganado, mas todos os casais que conheço que cultivam uma relação BDSM duradoura também tem uma relação baunilha, então não vejo isso de forma alguma com preconceito, mas ao contrário, acho que é algo que pode trazer muitos benefícios para a relação SM (apesar de trazer alguns riscos também).
Saliento que antes dela tive outras escravas, mas nenhuma delas com envolvimento baunilha, e nem de longe por tanto tempo.
Quanto ao tipo de nossa relação, não é 24/7, procuramos dividir bem os "momentos SM" dos "momentos baunilha". Eu não acredito que é possível, na prática, que se viva uma relação 24/7, porque antes de sermos BDSMistas, somos seres humanos vivendo em uma sociedade baunilha, então são nossos afazeres e necessidades na sociedade baunilha que vem em primeiro lugar.
Me descobri dominador a mais ou menos 10 anos (tenho 32), mas de forma absolutamente intuitiva - era um relacionamento baunilha, e depois que terminou (uns 2 anos depois), comecei a ler a respeito, e descobri que muito do que fazíamos era puro BDSM.
Foi esse relacionamento que me motivou a estudar profundamente sobre o BDSM, até desejar loucamente conhecer praticantes reais e sérios no Brasil. Demorou ainda mais uns 2 anos, e então fiquei sabendo que praticantes estavam se encontrando periodicamente em restaurantes no Rio de Janeiro para um happy hour.
Mesmo sem conhecer absolutamente ninguém, um dia me enchi de coragem, e fui lá conhecer o povo. Isso já fazem uns 6 anos, e desde então, considero que realmente passei a fazer parte do "meio" BDSM.
Desde então tive a felicidade de ir a muitos eventos, fazer muitos amigos, e ajudar muitas pessoas a saírem do armário também, algumas destas que tem inclusive posições bem destacadas no meio hoje, algo que me é motivo de orgulho. Tive algumas escravas também, como já disse no post anterior, mas nos últimos 4 anos tenho mantido apenas uma escrava fixa em coleira, que é minha vanessa{N}.
Acompanhei o nascimento e o crescimento das festas SM no Rio de Janeiro, bem como lembro bem de quando os encontros do grupo BDSM Rio não passavam de 5 ou 6 pessoas, enquanto hoje dificilmente aparecem menos de 30 pessoas!
Também tive a oportunidade, durante esses 6 anos, de organizar algumas play parties fechadas no Rio de Janeiro, umas 5 ou 6 até hoje, todas felizmente muito boas, algumas memoráveis. Tive ainda a oportunidade de estar em uma play party fechada no Dominna no fim de 2004 (ainda estive em outros eventos lá, naquele mesmo ano), o que me fez conhecer a diferenças e semelhanças do BDSM praticado no Rio e em SP.
Por fim, já fui muito ativo em listas de discussão, mas hoje confesso que enchi o saco. Mantenho apenas uma lista minha, mais como um "serviço de utilidade pública", que é a lista "CLASSIFICADOS BDSM", cujo objetivo é óbvio, ajudar a todos os praticantes a encontrar pares, pois não existe BDSM solitário.
Acho que foi um bom resumo - se é que não falei demais! rs...
Eu sou daqueles que, apesar de ser freqüentemente identificado entre os "BDSMsauros" do Rio, acha muito saudável para o meio que apareça gente nova. Não gosto muito desse papo de que "gente nova não sabe nada", ou que "gente nova não segue nenhuma liturgia".
Para mim, a verdade é que desde sempre, existem bons e maus praticantes, e que os maus sempre sobrepujam os bons em número. Como hoje o BDSM é muito mais popular, e tem muito mais dos ditos adeptos, também tem muito mais gente ruim na praça.
Eu sempre digo que, ontem ou hoje, achar bons praticantes é como aqueles garimpos de antigamente, com batéia, na beira do Rio: para cada 100 toneladas de escória, achamos uma pepitinha de ouro. Mas não é essa pepitinha que vale toda a escória?
Diferenças entre a velha guarda e a nova geração? Sem dúvida há algumas. Começando que hoje tem muita gente jovem chegando no BDSM, e eu acho isso ótimo! Penso sempre que quando eu comecei a freqüentar o meio, eu tinha 25 para 26 anos, e sentia falta de mais pessoas jovens freqüentando o meio.
Certamente, não seria tão legal daqui a 30, 40 ou 50 anos uma play party só com velhinhos, com suas bengalinhas, óculos de leitura e fraldas geriátricas, ainda tentando fazer cenas performáticas! rs... Viva a renovação!
Os novos são muito bem vindos sim, e é nossa obrigação identificar os que são bons.
Quais as praticas que voce aprecia mais?
Voce escreveu que teve outras subs antes da atual (e parece-me que única). Antes da atual, teve irmãs de coleira? E com a atual, ela ja teve irmã de coleira? O que pensa sobre o assunto?
Como vê a postura dos Dominadores no BDSM hoje? Com relação aos BDSMdinossauricos, são melhores porque tem acesso a mais informações e quantidade de pessoas dentro do contexto BDSM, ou devido a isso, se tornaram ruins, nada serios?
Quanto a alta rotatividade, voce acha que isso ocorre por conta do que?
Com minha sub atual, já tive 2 tentativas de irmãs de coleira, que não deram certo por motivos absolutamente distintos. Eu acredito que a irmã de coleira é uma possibilidade, que pode ser muito excitante e estimulante para todos, desde que todos estejam de acordo e que isso seja feito da forma mais transparente possível. Eu não saberia ter mais de uma escrava se tivesse que esconder uma da outra.
Hoje ou ontem, dinossauros ou novatos, eu vejo uma imensidão de maus dominadores, e alguns poucos dominadores de qualidade. Não consigo fazer uma correlação entre "antigos são bons, novos são ruins". Apenas temos a sensação de que há mais dominadores ruins hoje porque há de fato muita gente entrando no meio, e aí é claro que vai entrar muita gente ruim.
Já aqueles que identificamos como dominadores antigos são os que sobraram, com o passar do tempo, em meio dos dominadores ruins de sua época. Talvez por isso, pareça haver mais antigos de qualidade.
De qualquer forma, reafirmo que temos que valorizar a renovação, e é nossa missão identificar os bons no meio de tantos que se dizem praticantes.
Mestre Nathan,
Com tantos anos no meio, como o Sr administra a Vida Baunilha com a Vida SM?
Assim...como posso ser mais direta.........
Sua namorada é sua submissa?
E a família? Sabe, entende e respeita sua opção BDSM?
Grata pela atenção!
saudações, *naara
Com essa divisão, podemos também manter as famílias sem ter que saber dessa nossa opção. Eu particularmente não acho uma boa política abrir seu estilo de vida BDSM para todo mundo, uma vez que isso, devido ao preconceito natural da sociedade para com a nossa prática, mais cedo ou mais tarde, acaba trazendo algum problema.
Quanto as diferenças que vi na play aí, e nas que organizei ou fui aqui, acho que tem principalmente ver com as diferenças típicas entre o paulista e o carioca.
Por exemplo, algo que me chamou muito a atenção na play em que estive aí é que havia pessoas com grande capacidade no BDSM, mostrando domínio em muitas técnicas, mas que havia uma interação muito mais polida, ou um pouco distante até, entre os praticantes. Eu via um casal fazendo uma bela cena aqui, outro fazendo uma cena ali, outra acolá, mas pouca interação do grupo como um todo.
Nas plays aqui, para que tenha uma idéia, a sensação é que o grupo é uma coisa só, e é muito comum todos os presentes pararem para assistir uma cena, quase que participando indiretamente da mesma. E é também comum, ao fim de uma cena de um casal que foi muito bonita, todos pararem para aplaudir.
Essa diferença de comportamento se reflete também nos encontros, enquanto aí o pessoal é muito mais "low profile", aqui é uma grande bagunça, todos rindo e falando alto, todos se movimentando muito.
Para mim, isso nada tem a ver com o BDSM, e sim com o fato de que o paulista em geral é mais cosmopolita, mais "civilizado", enquanto o carioca em geral é mais provinciano, mais bagunçado mesmo. Mas não dá para dizer que "esse BDSM é melhor, aquele é pior".
Tem sido muito falado aqui nas entrevistas sobre as diversidades dentro do BDSM. Apesar da liturgia, cada Dom/Domme, submisso/a, faz suas proprias regras. Alguns são antiliturgicos, outros são liturgicos radicais e por ai vai. O que eu acho a principio, muito bom, pois cada um é cada um e a realidade de um não é a mesma do outro....e tem que haver democracia mesmo, porque na minha opinião, BDSM gira em torno de sexo, mesmo que não haja penetração, Porém, várias visões, acabam gerando discussões e brigas internas, vemos isso ate mesmo dentro de um grupo, que a principio se dizia e parecia mais unido em suas ideias, e de repente, la estão as divergencias e com isso vem a parda para o BDSM, deixando-o vulnerável, sem unidade, sem força....
Acredita nisso?
Como voce vê esse fato, a diversidade dentro do BDSM?
Acha que para o BDSM virar um grupo coeso, inclusive com força para se impor perante a sociedade, caberia sim um empenho dos varios grupos e suas ideias para a formação deste sonho?
Gostaria que desenvolvesse um pouco sobre o assunto, com a experiencia que voce tem dentro do BDSM, e por ser um dos antigos e ter passado com certeza um pouco por esse processo de "descobrimento" do BDSM, se é que posso chamar assim
Eu costumo dizer que não existe UM BDSM, mas o BDSM DE CADA UM. De cada Mestre, casal, ou par. Sei que há alguns mais puristas, inclusive algumas pessoas que respeito bastante, que acreditam que tem que haver ao menos uma linha mestra, um conjunto de práticas ou rituais mínimo, senão vira bagunça.
Eu até acho essa idéia boa na teoria, mas inviável na prática. Não há um manual internacional do BDSM. Não á uma instituição internacional, uma ISO, que defina padrões mundialmente aceitos para as práticas BDSM. Então falar em um padrão, em um "modo correto" de se praticar o BDSM, para mim é um esforço para se alcançar o vento.
Mesmo o SSC, que é mais comumente difundido aqui no Brasil, não é um consenso internacional. Em outros países, tem gente praticando a variante RACK (Risk Aware, Consensual Kinky). Então, se tem uma coisa que o BDSM me ensinou com o tempo, é a ser mais tolerante com as diversidades. Devemos sim é nos preocupar em extirpar do nosso meio os sangue-sugas, os estelionatários, os estupradores, os psicopatas, as verdadeiras maçãs podres. E se ligar menos no que o nosso colega de chicote acredita ou pratica.
Quanto a "se impôr perante a sociedade como grupo", talvez seja a coisa mais polêmica que vou dizer, mas eu não gosto dessa idéia. Sei que é o sonho de muitos, mas não é o meu. Parte do meu tesão em ser BDSMista é exatamente o fato de não ser uma prática para qualquer um, e ter essa verve underground.
Também acredito que o fato de mantê-lo underground também ajuda a garantir uma melhor qualidade dos praticantes. Quanto mais popular o BDSM fica, mais gente inconveniente quer "participar do oba oba", e mais difícil fica para nós filtrar a turma boa que vem junto.
Eu tenho uma liturgia própria sim, mas que eu chamaria de muito muito light. Apenas algumas ações que se repetem em cada sessão, como um ritual. Fora isso, gosto de manter as ações em cada sessão sem grande planejamento, pois me agrada muito ir elaborando enquanto faço.
A surpresa que gero na escrava, e até em mim mesmo às vezes, sempre me agrada. ;)
Dono eu te amo!.
*Beijos para todos os meus amigos!.
vanessa{N}
Eu mesmo, em uma época que andei afastado das festas e encontros, estava trabalhando cerca de 18, 20 horas por dia, totalmente concentrado em um projeto que durou mais ou menos um ano. Naquele momento, BDSM realmente era supérfluo.
"uma vez que pode-se dizer que ela (submissa) se enquadra no tipo "rebelde" de escrava, e sempre representou um grande desafio de dominação para mim...."
Dito isto, poderia explicar mais detalhadamente e objetivamente, o que seria uma escrava rebelde no seu ponto de vista e experiencia?
E qual o prazer a mais, que o desafio desse tipo de dominação com esse tipo de escrava (rebelde) lhe proporciona?
Nesses 4 anos de relação com a mesma escrava, com toda a rebeldia que provavelmente voce se deparou, travou batalhas e domou, ate hoje, ela continua rebelde? E isso ainda lhe dá tesão pelo desafio?
Isso é interessante sim, para um Mestre, para "firmar a mão". Mas algumas vezes também é verdade que passa um pouco dos limites, e enche o saco.
Nesse momento são necessários corretivos mais sérios, para que o relacionamento volte a seus eixos.
Mas no dia a dia, é bem gostoso sim. Até porque gosto de ter que forçar um pouco as coisas, e me divirto com as manhas dela. ;)
O Sr. traçou um paralelo entre a comunidade BDSM Rio e SP , gostaria perguntar se o Sr teria algum comentário a fazer sobre a comunidade BDSM virtual. Ou seja sobre o ambiente do Orkut, dos chat e das listas de discussão.
Aproveito para para apoiar a ideia do Carceiriro.
O que, em sua opinião, atrai pessoas com vários anos de BDSM a comunidades como a ID, cujo público alvo é, teoricamente, quem está começando?
Meus respeitos, ---gueixa kaizen
Mas não me arriscaria a dizer o que atrai outros, prefiro responder só por mim! ;)
Na correria aqui então deixo uma perguntinha simples.
Switchers, qual sua opinião a respeito?
saudações
Quero dizer, se o cara encontra uma Domme nata, ele se sente submisso. Se encontra uma sub nata, ele se sente Dominador.
Agora, pessoas que dizem que sentem desejo Dominador e submisso pela mesma pessoa, na minha opinião (é reforço que é SOMENTE minha opinião), não são switchers reais, mas alguém querendo um sexo apimentado.
E que "pessoas que dizem que sentem desejo Dominador e submisso pela mesma pessoa (...), não são switchers reais, mas alguém querendo um sexo apimentado."
Isto posto, e respeitando SEMPRE a sua opinião, gostaria de ir um pouco além no tema. Eu sou SW, já vivi essa situação com um SW e o resultado foi muito além do tal "sexo apimentado"... Então eu pergunto: você não acredita que dois SW possam manter uma relação em que os papéis se alternem? E como definiria o que chamou de sub nata ou Domme nata?
Aproveitando para dar as boas-vindas!
O artigo era em inglês, e resumindo em pouquíssimas palavras, o mesmo dizia que "BDSM é transferência de poder". Essa frase embute alguns conceitos importantes, de que o artigo falava, dos quais vou tentar rapidamente explicar dois:
1) Como em uma pilha, para que haja essa transferência, precisa haver diferença de potenciais, ou seja, um desnivelamento de poder entre as partes. Se ambos "jogam" nos dois papéis, não há desnivelamento, mas equilíbrio de poderes.
2) O artigo afirmava, e eu concordo, que esse poder emana do(a) sub para o Dom(me), novamente fazendo o paralelo com uma pilha, em que a energia sempre se origina em apenas um dos polos. Isso não é difícil de entender, se pensarmos que o(a) sub tira o poder sobre si, e o entrega ao Dom(me). Mas se ambos "jogam" como ambos os polos, não há um polo gerador de energia contínua.
Vistos esses pontos, a situação que você viveu gera muitas perguntas para mim: se ela era seu submisso, como você poderia se entender submissa dele? E se ele era seu Dono, como vc poderia se entender Dona dele? Talvez você possa responder em outra oportunidade, são respostas que eu gostaria sinceramente de conhecer, até porque me interesso muito por experiências diferentes das minhas no BDSM.
E veja: minha opinião de forma alguma desacredita que você teve maravilhosos MOMENTOS BDSM - o que penso que qualquer pessoa pode ter, seja experiente ou iniciante, praticante ou baunilha.
Aliás, a psicologia já diz que tudo o que pensamos é baseado em experiências pessoais passadas, que são nossos modelos para tudo com o que obtemos contato e que é novo para nós. Então tudo, sempre, será a nossa percepção muito pessoal do mundo.
Eu sou apenas mais um com minha visão muito pessoal, e por isso mesmo falha, do BDSM. ;)
Olha, eu posso falar de onde vem o jeito que minha escrava escreve, vanessa{N}.
No dois anos entre eu ter terminado a relação que já mencionei aqui, onde me descobri Dominador, e quando eu realmente encontrei praticantes de BDSM no Rio de Janeiro, eu na ânsia de conversar com praticantes entrava em canais de chat BDSM internacionais, via IRC.
Para quem não é jurássico da internet como eu, IRC era um tipo de chat antigo, em que só era possível digitar texto. Nada de fotos, sons ou vídeos, como os chats modernos. MSN ainda nem pensava em nascer.
Como nesse tipo de chat as possibilidade de identificação são limitadas, as salas de chat tinham regras de identificação, que apareciam logo que você se conectava, e que diziam que Dominadores(as) deviam escrever seus apelidos com inicial maiúscula, enquanto subs deviam escrever seus apelidos com inicial minúscula. Assim, logo de cara você já sabia quem era Dom ou sub.
Além disso, os(as) subs com coleira deveriam escrever iniciais abreviadas do apelido do seu Dono, entre chaves, no fim de seu nick, como se fosse um brazão, ou "medalhinha de identificação" (essa é especialmente para os fãs de dogplay!). A abreviação também tinha um motivo, de que nesses chats o tamanho do apelido que você podia usar era bem limitado. Nessa época, era impossível ver esses apelidos que vemos hoje nos UOL da vida, tipo "MasterDomBlasterSupraSumodoUniverso"... rs...
Tenho a impressão, e por favor me corrijam se eu estiver errado, que a moda dos nomes com formatação diferente no SM começou com um artigo do nosso amigo Mestre Jot@SM em seu site, em que ele questionava o jeito antigo das subs escreverem seus apelidos, uma vez que para ele o { }, ou ( ), representava a coleira, e que por isso quem devia estar dentro dele era a sub, não o Dono.
Além disso, Mestre Jot@SM sugeriu que os Mestres "deveriam vir na frente" (sic), e separados de sua sub por uma guia (o traço de sublinhado). Seguindo as sugestões do Jot@, o nick da minha sub deveria ser "Mestre Nathan_RJ_(vanessa)", ou "N_(vanessa)".
Respeito a opinião do Jot@, mas nunca simpatizei com esse modelo, por isso decidi por manter o antigo. Mas a moda desde então parece que colou, pois muita gente passou a usar assim, entre outras muitas variantes.
Enfim, como eu disse, é uma questão de simpatia pessoal, que eu não considero nada importante. Apenas acho que, em alguns casos, gera dúvida, e fica engraçado... ;)
Mais uma vez, parabéns pela entrevista!!!
Eu acho que o importante aqui é o(a) Dom(me) deixar claro desde o início qual será o tipo de relação. Se a relação não terá nenhum tipo de envolvimento baunilha, somente BDSM, acho natural que a questão da fidelidade se prenda somente às premissas BDSM, ou seja, o respeito à coleira.
Se além da relação BDSM, haverá também uma relação baunilha, um namoro ou algo do gênero, aí é claro que vão ser definidas as regras próprias de fidelidade, como qualquer casal baunilha.
Quanto a distinguir escrava e sub, eu pessoalmente não dou muita importância a isso. Me refiro à minha algumas vezes como escrava, outras como submissa, sem que isso descreva em detalhes seu papel perante a mim.
Mas já li definições interessantes, que diferenciam as duas em relação a quantidade da transferência de poder, sendo que escrava seria aquela que transferiu todo o poder sobre si para o Dono, não decidindo sobre mais nada em sua vida. Seria, dessa forma, a mais completa forma de entrega no BDSM.
Acho até a definição bacana, bem lógica e fundamentada. Apenas não dou tanta importância a isso.
No caso da minha "pilha" citado, talvez por termos os dois feito teatro e passado por muito Stanislawski, os pólos se invertiam dentro de um rito que funcionava de forma mais ou menos fixa: entrávamos nos personagens a partir de uma simples troca de olhares, que estabelecia a liturgia do momento. Claro que não havia uma relação do tipo 24/7, onde os papéis seriam constantes, éramos namorados apenas e com vidas muito corridas.
Mas a partir daquele primeiro olhar já ficava claro com quem estava o comando - e era automático o outro baixar os olhos e a cabeça, em sinal de entrega absoluta. A energia que fluía naquele gesto deixava sempre muito óbvio que não havia o que discutir ou questionar... e de alguma forma sempre deu certo!
Só que fora do nosso campo energético, para manter a metáfora, éramos parceiros e cúmplices, não havia um Dono formal e público. Éramos dois seres predadores à solta, se é que me entende...rs
Beijos e parabéns pela excelente entrevista!
Como SW de plantão aproveito para expor também humilde opinião, concordo com o Nathan e com a Maria, acredito que ambos estão apresentando o mesmo quadro por diferentes perspectivas as quais foram criadas, como muito bem colocado pelo Nathan, a partir do prisma das experiências pessoais de cada um.
Também concordo que o principal arquétipo do BDSM é a "transferência de poder", tomando a liberdade de utilizar-me da metáfora da pilha, creio que é difícil para uma pessoa que só viveu "um dos pólos" compreender que possa existir uma mudança de polaridade "inversamente proporcional" entre duas pessoas, pois mesmo havendo "equilíbrio de poderes" basta um dos pólos ceder, contudo é necessário ter um entrosamento e conhecimento mútuo muito grande para que a tal dinâmica funcione e com simples gestos ambos possam "sintonizar suas polaridades". Particularmente consegui isso apenas uma vez, com uma companheira de vários anos, foi uma relação complexa, mas muito intensa... ;)
Aproveitando ainda a deixa da "transferência de poder", Nathan o que você acha de uma Domme que aceita ser dominada? Será que tal transferência não é maior do que quando uma submissa é dominada? Dominar uma Domme não potencializaria o poder do Dominador e a submissão de uma Domme que submete-se a dominação?
No meu entender, uma "Domme que aceite ser dominada", de fato, está resolvendo naquele momento se tornar sub. Eu acho isso absolutamente possível, e muito mais comum do que se possa imaginar. Até porque, se tem coisa comum no BDSM é a gente entrar pensando que será Dom, ou será sub, e por fim descobrir que pertence ao lado contrário do chicote. Ainda mais comum para os que acham que "serão dominadores, pois dominador é que se dá bem"...
Se tal transferência de poder é maior? Não acredito. O "poder", de que falamos aqui, nada mais é que o poder sobre si, portanto o poder que a sub, ou a ex-Domme-agora-sub, entrega ao Dono, são o mesmo.
É por isso que digo que este poder sempre se origina da(o) submissa(o), pois é ele(a) que entrega o poder sobre si para o(a) Dono(a). E é claro que, por receber este poder, o Dono "se enche de poder", mas apenas sobre aquela submissa. Este mesmo poder não funciona nem um pouco sobre uma submissa que carrega (e honra) uma outra coleira, por exemplo.
Também é por isso que não é raro, ao irmos em um evento BDSM qualquer, vermos Dominadores geralmente reconhecidos como "poderosos", mas parecendo apagados, sem brilho naquele evento em especial, exatamente por estarem sem submissa - talvez por terem rompido uma relação recente, ou algo assim.
É pelos motivos acima que acredito com convicção que o originador do poder no BDSM é o(a) sub. Sei que é polêmico esse pensamento, mas é igualmente simples (o que não é defeito, e sim qualidade), e desconcertantemente lógico.
Mas vamos lá, continuando a conversa que tá bem boa:
Você acha que existe algum preconceito no meio em relação a submissos homens? Porque o que vemos em número muito maior, sempre, são submissas mulheres e Doms ou Dommes circulando pelas festas e comunidades. É infinitamente menor o número de subs homens que abre o jogo nas comunidades e listas. A que se deveria essa realidade, em sua opinião? No Rio também é assim?
(Se disser que não, tô tomando o primeiro vôo praí amanhã!!!!!! )
Escrava sem coleira aqui? Peça raríssima! Não que elas não existam, apenas acho que elas tem medo de se perder. se saírem de casa sem coleira...
Acredito que seja perfeitamente possível uma relação baunilha entre Dominadores, porém fica óbvio que precisariam ser feitos ajustes/acordos nesse sentido.
Já conheci por exemplo um casal de Dominadores, que se conheceram no meio e se casaram, em que a condição era que ambos seriam livres para terem seus/suas subs em separado. Já soube também de outros casais que dominam seus submissos sempre juntos.
Ou seja, desde que todos estejam de acordo, sempre dá para negociar! ;)
Agradecimento
Uau! Foi uma semana de MUITAS perguntas! Quero agradecer ao tratamento gentilíssimo que me foi dispensado nessa entrevista, e parabenizar a todos que perguntaram pelo nível impressionantemente civilizado do debate.
Mesmo quando os temas eram bem polêmicos, nunca se deixou de manter os questionamentos no plano das idéias, nunca levando-se nada para o plano pessoal. Só tenho a agradecer, para mim foi muito enriquecedor MESMO!
Pelas regras do jogo, agora me cabe anunciar o próximo entrevistado. Pensei bastante, e mesmo tendo muitos nomes de peso para chamar, gente antiga e importante no BDSM, resolvi mudar o foco, e aproveitando o fenômeno recente de renovação do meio que tem acontecido aqui no Rio de Janeiro, resolvi descobrir um pouco mais o que essas novas cabeças pensam.
Por isso decidi chamar alguém da "nova geração", e essa pessoa é a Domme conhecida como Sra. das Flores.
Sra. das Flores é Domme shibarista, figurinha fácil na festa FetiXe, do Rio de Janeiro, sempre contribuindo com belas cenas. E de senhora só tem o apelido - pela carinha de menina, devia se chamar "Menina das Flores".
Portanto, menina das flores, agora é com você. Boa sorte!