Seção C O N T O S


Empréstimo

by Helena

Julho de 2006

Empréstimo não é um conto. É um depoimento, verdadeiro desabafo. Foi escrito como forma de mostrar as pessoas quem nem tudo é um "mar de rosas" na fantasia que se torna real.


Empréstimo

Em poucos dias faríamos um ano juntos. Quando tudo começou, muito antes de pensarmos na possibilidade de qualquer tipo de relação, éramos apenas duas pessoas passando por momentos de (re)descobertas, buscando novos caminhos e ainda com muito medo de andar e ousar. Naquele momento talvez, sozinhos, não conseguíssemos ir muito longe. Foi puro acaso ter havido o encontro... e foi pura teimosia, de ambas as partes, ter feito dar certo.

E o nosso "dar certo" não implicava nenhum tipo de relação fora da vivência do fetiche e das fantasias. Nenhum de nós queria compromissos maiores que o das descobertas e explorações de um sensualismo que sabíamos existir em nós e que ainda não deramos vazão. Se por vezes os sentimentos se confundiram, causando aflições por conta das inúmeras afinidades, da cumplicidade construída ao longo desse tempo e de certas inferências na vida particular de um e outro que a parceria proporcionou, após lágrimas, birras e silêncios doloridos tudo se resolvia e voltava ao acordo inicial. O que nos uniu e une, ainda hoje, é uma irmandade de desejos, que o outro parece ter a capacidade de ler nos olhos e realizar.

Era uma manhã fria de domingo e tomávamos café na casa dele quando, deitado na cama com cara de "seja o que Deus quiser, vou falar", ele soltou com a voz baixa que lhe é peculiar: queria ser emprestado a outra domme. Pensei não ter ouvido direito, queria não ter entendido, achava que ele devia ter ficado calado. Não disse nada, me levantei com a desculpa de ir fumar um cigarro na varanda. Cabeça a mil... Engraçado como pensamos um monte de coisas negativas: o que fiz de errado, fui muito má, muito boazinha, devia ter feito isso e não aquilo, devia ter agido assim e não assado. Somente se pensa nos limites existentes e já vividos; dificilmente se pensa na expansão desses mesmos limites.

O tempo de convivência e o tanto que me conhece, o fez ficar onde estava, deixando-me ruminar todas essas dúvidas antes de se aproximar. O nosso "elo" é tão forte que ele soube exatamente o tempo de vir até a varanda, trazer um casaco e me puxar para dentro. Nesse momento, sentamos e conversamos.

Eu já havia re-entrado na dimensão da nossa realidade e ele começou a falar. Pode parecer estranho a quem esteja lendo, mas eu sabia exatamente o por quê dele querer viver essa experiência. Não havia nada errado na nossa relação, pelo contrário, aquela experiência seria um reforço aos nossos vínculos, a prova maior que ele me dava de sua confiança e entrega. Ele é um homem que sempre viveu em posições de liderança, de comando, de decisões, seja na vida profissional seja na familiar.

Pouquíssimas vezes na vida confiou em alguém a ponto de depositar parte de seu destino em mãos alheias - da mesma forma que nunca, anteriormente, havia compartilhado seu fetiche e fantasias com ninguém. Estava cansado desse controle, queria "tirar folga" de ter que decidir tudo na sua vida. Queria saber o que era estar a beira do abismo e esperar a ordem para pular. Um vôo no escuro, era isso que sua habilidade de piloto queria experimentar. Mas pra isso, precisava que eu aceitasse "brincar de Deus", fazendo toda a retaguarda e construindo o destino que ele seguiria naquele momento. Acho que a minha dúvida maior foi se eu queria entrar nessa brincadeira e assumir tanta responsabilidade. Acabei dizendo que sim.

Foram vários dias pensando a respeito, fazendo planos e, principalmente, pensando em quem eu confiaria a ponto de trazer para dentro da nossa relação. Inicialmente, três nomes de amigas me vieram a mente - somente a elas, eu o entregaria de olhos fechados, com plena confiança. Minha idéia inicial era não estar presente, até porque não sei se gostaria de ver tal situação. Conversando com ele essa idéia foi imediatamente descartada: ele somente queria/aceitaria se eu estivesse presente, todo o tempo ao lado dele.

Depois disso, dois nomes foram descartados - por mais intimidade, afinidade e confiança que eu tivesse com elas, não me sentiria confortável na situação (e nem sei explicar racionalmente o motivo). Restava um nome, uma mulher que das três era a que tinha menos intimidade na época, porém era com a qual mais me identificava, mais próxima sentia de mim - ainda que num plano puramente intuitivo. Convidei-a para um almoço e expus a situação. Sei que ela lerá esse relato... rs... e a cara de susto dela me fez pensar: ai, céus... devo estar ficando maluca de perguntar isso. Depois de muito conversarmos, de esmiuçarmos todos os pormenores da situação, ela aceitou.

Foram dias de adolescência tardia, para nós três: planos, conversas, comprinhas, expectativas, escolha de local. Tudo era festa, mas também dava friozinho na barriga e um medo danado da hora H. Dia, hora e local acertado na agenda dos três e lá fomos nós.

Ele estava muito tenso, como sabia que estaria e havia avisado a ela. Como estratégia, havíamos combinado um "momento de informalidade" antes, beber um vinho, beliscar alguma coisa, conversar muito, já dentro do ambiente escolhido - que fora acertado ser um local neutro a todos, um motel. E bota conversa nisso... acho que passamos umas duas horas conversando amenidades, rindo muito, a ponto de, em certos momentos, eu achar que não rolaria nada além disso. Foi quando tive consciência que o rumo do que aconteceria daí em diante dependia de mim, era eu que estava no controle. Havia topado o jogo, seguiria em frente, e dei início.

Não cabe entrar em pormenores, devo apenas dizer que foi gratificante quando ele, logo no início da sessão, procurou a minha mão e a apertou com força durante quase todo o tempo das preliminares. E ao longo de tudo, a todo instante, nossos olhos e mãos se buscavam, se encontravam e traduziam um sentimento que não há palavras que descrevam - ou talvez, sequer haja uma nomenclatura que o traduza plenamente. Em alguns momentos, a comunhão de desejos e prazeres - meus e dele - era tão intensa que ainda que os corpos não estivessem unidos, eu era capaz de senti-los na minha própria pele.

Essa experiência me proporcionou um dos mais belos, fortes e emocionantes momentos que já vivi: vê-lo gozar, sob o domínio de outra mulher, com a cabeça apoiada em meu colo e me olhando nos olhos. Uma imagem para nunca esquecer.

Mas, não pensem que tudo é um mar de rosas... não pensem que não há ciúmes, que é fácil abrir mão de sua posse total, do controle sobre o desejo e o prazer do seu parceiro. Em alguns momentos a confusão de sentimentos me fez sair do quarto, ir em busca de um cigarro ou de um copo de vinho, mesmo que a sede e a vontade de fumar não existissem com premência. Era apenas o minuto que eu precisava para me recompor, retomar o meu auto-controle e seguir adiante.

Ver a harmonia do seu parceiro com outra, ver como ela descobre os pontos fracos dele, como o faz se entregar com intensidade, obtendo respostas que você se achava única em conseguir (ou que, às vezes, você nem tinha conseguido), faz com que se perca a sensação de poder. Cheguei a sentir a quebra do vínculo da relação e tive certeza que, daí em diante, teríamos que rever todas as nossas bases já consolidadas. E foi exatamente o que aconteceu...

Confesso que nos dias que se seguiram fiquei confusa, ou melhor ambos ficamos confusos. Ou, talvez seja melhor dizer que os três ficaram confusos.

Quando estabelecemos uma relação, ainda mais quando essa relação já tem uma história minimamente consolidada, qualquer elemento novo que seja introduzido - ainda que de forma consensual - é desestabilizador. Demora-se um tempo para naturalizar o novo; exige muito diálogo, muita maturidade e pouca vaidade para o reconhecimento que ninguém é único na vida de ninguém, que cada um completa o outro sob certos aspectos, e em outros não.

Aprendi o desapego, a lidar com a minha vaidade e com a enorme tendência que tenho de querer controle total. Ainda que seja capaz de apontar as transformações mais evidentes que se deram nele, prefiro apenas dizer que foram positivas no sentido de fazê-lo abrir-se mais às relações e renovar a confiança nas pessoas.

Saímos dessa experiência com vínculos renovados, reconstruídos em novas bases, muito mais flexíveis, que inclusive permitiram uma maior aproximação em outras esferas de nossas vidas.

Mas também se perdeu um pouco da magia... da sensação de que aquela comunhão só existia entre nós. Descobrimos que a comunhão pode existir com muitos corpos, com muitos corações, em vários caminhos que temos que percorrer ao longo de nossas vidas. E que, talvez, o mais importante seja a plenitude do momento e a intensidade das lembranças.

Saímos dessa experiência muito mais conscientes de quem somos, dos nossos limites e da nossa possibilidade de lidar com as relações, porque entramos em contato com a face escura dos nossos desejos, que muitas vezes negamos mas com a qual precisamos ter contato, para não sermos estranhos a nós mesmos.

Não sei se repetiria a experiência...


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