Seção C O N T O S


A Sombra de Dionísio

by Helena

2009


A Sombra de Dionísio
Parte I

No primeiro minuto após a meia-noite o grande portão de madeira negra, escurecida pelo tempo, abriu-se parcialmente deixando sair para a noite uma figura pequena e assustada.

Era final de inverno e a Lua estava cheia. Percebia-se que ali, naquela figura que mal se distinguia entre muitos casacos e um chapéu, havia um ser humano... ainda que seus olhos parecessem os de um animal prestes a ser abandonado.

Assim que aquele corpo transpôs o portão, este voltou a fechar-se. Por alguns minutos a figura ficou parada, olhando a própria sombra que o luar projetava sobre a madeira: sombra negra sobre o negro do portão, pouco se diferenciava. De certa forma era uma só imagem, uma só coisa, cujos contornos foram cuidadosamente apagados ao longo de muitos anos.

Poucos dias antes fora informado que chegara ao limiar: a idade em que deveria sair e passar todo esse ano no mundo exterior. Exatamente um ano depois o portão seria aberto outra vez e poderia voltar, sabendo de antemão que tal retorno seria definitivo. Era sua única chance de optar. Uma única oportunidade. Depois teria início uma nova jornada, nasceria um novo ser, cujo corpo seria definitivamente reconstruído.

Pouco se lembrava do seu passado e do mundo exterior. Era muito pequeno quando fora levado para aquele lugar e nunca mais saíra. Lembrou-se da perplexidade de estar sozinho por muito tempo, não vendo ninguém, não ouvindo nenhum som além do ranger das dobradiças de uma portinhola por onde enfiavam comida e água uma vez ao dia. A princípio nem ao menos comeu acostumado que estava a ter a comida oferecida de outro modo.

Depois percebeu a fome, começou a sentir seu corpo e o instinto de sobrevivência o fez pegar o que lhe fosse oferecido, da forma que fosse, para saciar-se. Nunca havia o bastante para saciar-se, era apenas uma ração mínima. Ainda que na época não tivesse consciência disso, sentiu o tempo passar pela sujeira que se acumulava sobre seu corpo, pelos odores desagradáveis que começava a exalar e pela podridão que se tornaram suas roupas. Crescia nu. Confinado num espaço pequeno, iluminado pelo sol a cada manhã, entrando pela fresta de uma janela muito alta, fechada por restos de madeira e grades de ferro.

Uma noite, contrariando o hábito, lhe foi oferecida uma refeição extra. Sem questionar - até porque não havia ninguém a quem se dirigir ou mesmo lembrava-se do significado desse ato - comeu e bebeu tudo. Adormeceu satisfeito.

Na manhã seguinte, ao acordar, viu-se num outro espaço, um pouco maior e mais iluminado. Notou que havia outros corpos deitados, nus como ele, acordando também ou ainda adormecidos. Se soubesse o significado dos números teria contado quantos eram.

Cada um que despertava tinha a mesma reação: olhava em torno e encolhia-se num canto. Silêncio. A luz do sol partiu e voltou. Poucos dormiram. Mantinham-se num estado de alerta, observando, sentindo o cheiro do medo que tomava o ar. Um barulho conhecido: o ranger das dobradiças de uma portinhola - comida imediatamente alertou o cérebro. Famintos, muitos se jogaram sobre ela tentando pegar a maior porção ou várias porções. Uns poucos não se movimentaram. Ele ficou quieto em seu canto. No dia seguinte, a mesma coisa: comida jogada e o avanço dos mesmos. No terceiro dia, aqueles que avançavam sobre a comida haviam desaparecido. Restavam muito poucos.

Novamente a comida foi trazida e ficou jogada no chão por algum tempo, sem que nenhum deles se dispusesse a pegá-la. Foi ele quem fez o primeiro movimento: pegou um pedaço pequeno e voltou para seu canto. Outro e outro repetiram o movimento, mas alguns não se moveram. Esses também desapareceram no dia seguinte.

Os poucos que ficaram começaram a ser alimentados duas vezes ao dia. O medo já não dominava o ar, mas o silêncio continuava absoluto. E assim passou muito tempo. Continuavam crescendo, mantendo-se em total recolhimento dentro de si.

Se o tempo pudesse ser dimensionado, ou se eles soubessem como fazer isso além de simplesmente observar a luz indo e vindo, perceberiam as transformações que começavam ocorrer em seus corpos: deixavam de ser crianças pequenas.

Um dia, logo depois do amanhecer, uma figura enorme entrou no quarto. Seria tido como um gigante, se houvessem lhes contado histórias infantis. Não se podia reconhecer, entretanto, em suas expressões apáticas, as emoções que tal figura despertava. Foram postos de pé, em fila, amarrados por cordas que ligavam um ao outro pelo pescoço. O gigante pegou a ponta da corda e os conduziu até uma sala de banhos. Lá, outros dois gigantes os esfregaram com sabão e escovas, rasparam seus cabelos e os fizeram mascar folhas para aliviar a podridão do hálito.

Limpos e nus foram alimentados no chão. Pouco tempo depois tiveram a mais linda visão - outra figura imagética caso houvesse esse registro em seus pensamentos: a Rainha. Brilho e perfume foram as primeiras sensações. Brilho da roupa, dos cabelos longos, das jóias. E o cheiro bom... cheiro que não era de comida mas despertava coisas boas. Olhos fixos, vidrados naquela figura.

- Senhora, esses foram os que passaram no teste. Poucos, Senhora, cada vez menos...

A Rainha os olhou. Não eram grande coisa. Cada vez ficavam mais magros e feios, expressões sem nobreza. A mais baixa ralé dos homens. Era disso que deveria extrair o melhor que pudessem oferecer, não adiantava criar muitas expectativas.

- Prepare-os da melhor maneira possível. Só quero vê-los de novo no batismo.

Passaria muito tempo antes que pudessem vê-la novamente. Nesse tempo foram cuidadosamente adestrados pelos gigantes. Aprenderam todas as tarefas necessárias para a manutenção da residência e seus arredores. Trabalhos domésticos, cozinhar, lavar e engomar, marcenaria e costura. As tarefas começavam antes do amanhecer e não tinham hora para terminar. Muitas vezes não havia descanso, noite para dormir ou folga para sentar-se. E havia festas, das quais somente tomavam conhecimento pela intensa movimentação nos subterrâneos aos quais eram restritos. E pelo trabalho dobrado que tinham que executar.

Uma noite, depois de um longo tempo de festas, o gigante passou pelo local de dormir fazendo sua ronda diária e pegou um dos moleques se tocando, descobrindo o prazer das primeiras masturbações. Imediatamente todos foram despertados e levados para o banho gelado. Em seguida, a primeira surra, aplicada com cinto de couro, em todos, ajoelhados sobre o chão de pedra.

- Senhora, começou...

- Já não era sem tempo. Prepare-os para daqui a três meses.

A partir desse momento, invariavelmente, foram surrados cinco vezes ao dia, em diferentes horários, quando menos esperavam. Às vezes todos ao mesmo tempo, às vezes um por vez. Os instrumentos também variavam: da colher de pau ao chicote. O que estivesse à mão. Passaram a usar também um cinto semelhante ao dos gigantes, em tamanho menor, que prendia-lhes firmemente os genitais, deixando-os contidos e impedindo-os de tocar-se.

Após as surras, eram submetidos a sessões de carícias anais intensas, proporcionadas pelos gigantes, sem que houvesse, no entanto, penetração de qualquer tipo.

Os três meses passaram. Percebia-se a intensificação das atividades para a realização de alguma festa. Na véspera, os moleques foram retirados do serviço e entregues a duas figuras femininas - as "amas". Foram mimados e paparicados. Comida da melhor qualidade e à vontade. Podiam dormir quando quisessem. Banhos de água morna, cremes perfumados eram besuntados em seus corpos, em movimentos delicados. A sensação do toque feminino fazia despertar desejos. Os genitais contidos tornavam-se doloridos na luta entre o desejo de expansão e a contenção imposta.

Chega a noite determinada pela Rainha: o batismo. Envoltos em linho branco, virgem e macio, são conduzidos ao salão principal - que sabiam existir, mas nunca tiveram permissão para visitar.

São cinco pequenas figuras, cabeça raspada e corpo pré-púbere. Conduzidos pelo gigante principal, são colocados de joelhos à frente da cadeira onde a Rainha está sentada. Ao redor dela, outras mulheres, de igual beleza e imponência. Todas reluzentes, todas perfumadas, todas cobiçando uma prenda.

Um a um são nomeados, segundo a vontade da Rainha; dessa vez, por prenomes gregos. As parelhas de moleques são "irmãos" na origem do nome.

Um a um são chamados a se levantar, olhos fixos no chão, desnudando-se, recebendo o nome e um afago no queixo. O último a ser chamado foi ele: Dionísio.

São levados pelas amas a pequenos cavaletes, dispostos em círculo, no meio do salão. Colocados debruçados sobre eles, cabeça em direção ao chão, pernas abertas, totalmente expostos.

A Rainha percorre o círculo, olha cada detalhe dos corpos, das bundas ainda franzinas. Um gigante se aproxima trazendo uma bandeja onde estão dispostos vários tipos de instrumentos. Ela escolhe um pequeno chicote, preto, com a ponta em prata. Um a um são açoitados, por todo o corpo, a quantidade dos golpes variando conforme a disposição dela. Quando termina, as amas se aproximam e untam a região anal com generosa camada de creme. A Rainha os batizará: consolo em punho cada ânus é penetrado em um único movimento.

Terminado o ritual a Rainha senta-se novamente e convida as demais a darem continuidade à iniciação. Observa de longe a reação de cada um dos moleques às seguidas penetrações, à variação do diâmetro dos instrumentos, as lágrimas, os gritos, as ereções. É uma parelha fraca... Exceto por Dionísio, os demais não prestam.

Dionísio. Há naquele moleque algo de especial... Não verte uma lágrima, não emite um lamento, praticamente não move o corpo, recebendo passivamente cada estocada. Apenas a ereção contínua demonstra suas emoções. Esse, talvez, valha a pena...

- Tirem Dionísio da roda! Tragam-no a mim!

E assim foi feito. O moleque cresceu aos pés da Rainha. Dia e noite a seu serviço. Dormindo aos pés de sua cama, comendo as migalhas que ela lhe lançava, preparando-a para o prazer com outros. Seu treinamento, surras, castigos e recompensas eram por ela determinados e, na maioria das vezes, também por ela executados. Cãozinho de estimação cuja concretização do prazer nunca fora concedida. Dionísio se tornou adulto sem conhecer o próprio gozo - sempre contido pelas mais diversas técnicas. Vida, mundo, quereres e prazeres eram por ela e para ela. Dionísio perdeu-se do próprio corpo, fez-se sombra silenciosa para vela-la.

Tempo passou e a Rainha foi alertada da chegada para treinamento de uma nova parelha de moleques. Chegara o tempo também de Dionísio fazer sua opção. Os outros moleques já haviam seguido seus destinos, na própria casa ou a serviço de outras Damas. Restava apenas ele. Poderia escolher, o favorito ganhava esse direito. Primeiro e único direito ao longo de toda sua vida. Teria a chance de sair e não mais voltar. Conhecer o mundo antes de decidir. Voltando, tornaria-se uma "ama", castrado, renunciando de vez a sua masculinidade e tornando-se criada a orientar os mais jovens, supervisionando seus serviços à Rainha sem, contudo, desfrutar da condição anterior.

Chegado esse dia, Dionísio foi levado ao portão. Depois de muito tempo deram-lhe roupas, que mal sabia como vestir. Sobre seu corpo amontoou as peças, sem pensar na função ou na estética. Sem pensar. Estava apenas sendo levado mais uma vez. Mais uma vez lançado rumo ao desconhecido. Mais uma vez apenas um corpo, cuja alma ficaria lá dentro. Cuja sombra fixara-se ao portão, como marca a indicar-lhe o caminho de volta. Tinha que ir. De qualquer maneira tinha que seguir, porque essa fora sua última ordem.


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