Seção C O N T O S


Dois mundos
ou
O passaporte para o Inferno

by Helena

2007


Dois mundos ou O passaporte para o Inferno
É big, é big
É big é big é big
É hora, é hora
É hora é hora é hora
Ra-ti-bum...
Tódinha, Tódinha, Tódinha!

Beijos, abraços, bolo.
Odiava aniversários.
Odiava seu estúpido apelido.
Odiava o Maria Toda dos Anjos,

a professorinha querida, a "tia" de muitos sobrinhos emprestados e nenhum real. A morte prematura da irmã a privara dessa oportunidade. A ausência de filhos fora compensada pela dedicação aos filhos dos outros. Às vezes, sentia-se vivendo ainda no século XIX: tutelada pelos pais, resguardada numa torre esperando o "resgate" que nunca chegou e, a cada dia, ficava mais difícil chegar.

Sonhou todos os sonhos das adolescentes do interior: primeiro beijo, primeiro namorado, baile de debutantes, festa de noivado, marcha nupcial. Teve lá os seus beijinhos, suas poucas aventuras sexuais, um diploma de curso superior e um monte de fantasias trancadas a chave no fundo de um baú imaginário.

Conforme o tempo passava, cada vez mais os sonhos e as fantasias cediam lugar a uma apatia generalizada. O corpo decaía na mesma proporção da esperança de ser feliz.

Tinha amigas, e amigos, comadres que tentavam compensar o vazio de sua vida oferecendo uma enormidade de filhos para batizar. Ensinava a ler e o catecismo, na Matriz da Praça da Paz. Coisa estúpida... Praça da Paz... Havia uma guerra dentro dela pronta a explodir mas como ela não reconhecia as forças em conflito, adiava o embate.

Fazia cinco anos que descobrira a vida virtual, não a "Second Life" que anda por aí agora, mas a possibilidade de uma second life particular, privada, onde poderia renascer sob outra forma: a forma que escolhesse. Mas até isso era difícil... Como escolher outra vida sem parâmetros para edificá-la? Tentativa e erro, foi a solução encontrada. Navega aqui e ali, lê uma coisinha, vê um site, entra num chat, Orkut, comunidade e lista de discussão. Nada a falar ainda mas um universo a descobrir.

Apenas lê, marca textos para rever depois, cria arquivos secretos, com senha e disfarce de nomeação para não ser descoberta. Se excita com uma foto, um vídeo, um texto. O corpo vai mostrando os sinais do caminho do prazer. Está louca, pensa muitas vezes. Não é possível que isso seja normal, que alguém que não seja doente se excite com isso ou aquilo, mas cada vez mais ela se excita. E começa a experimentar: a cera da vela do altar de Nossa Senhora é pingada no braço; a agulha do bordado perpassa a pele; o vidro do perfume e o cabo da escova de cabelo começam a ter novas utilidades. O cotidiano começa a ser olhado com outros olhos.

Dois mundos começam a conviver, sem qualquer contato, dentro dela. Muitas vezes olhava ansiosa o relógio esperando a chegada da noite, o sono dos pais, o silêncio do mundo, para que pudesse sair daquele corpo e vagar imaterial pelos delírios da madrugada.

Numa dessas viagens esbarrou com ELE. Conversaram sobre poesia, música e arte. Falaram de outras gentes, não de si mesmos. Assim foi por muitas outras madrugadas. Quando ele finalmente quis saber dela, sentia-se confiante para falar da Todinha, deixando de lado a persona com a qual viajava pelas noites de sonho e prazer.

Falou de escola, crianças, família, da missa de domingo, da lasanha da tia, de frustrações e limitações as quais tinha cedido ao longo da vida. Rasgou a alma e o coração falando de vontades reprimidas, de fantasias incompreendidas, de desejos pouco explorados. Tinha tanta ânsia em se dar que acabou esquecendo de pedir um pouco mais dele. Contentou-se em receber uma ou outra palavra, perdida em meio a frases que ela sempre quisera ouvir.

Acabou por entregar-se a ele, num compromisso vago e pouco explorado antes dessa decisão. Queria deixar-se levar e foi. Não sabia bem para onde, não tinha certeza na companhia de quem... mas era alguém disposto a levá-la, e ela, a deixar-se conduzir.

Na manhã seguinte, comprou webcam e microfone. Cortou e pintou os cabelos. Escolheu um novo batom, uma blusa decotada e uma correntinha de ouro para usar no pescoço, sem a medalhinha da santa de devoção. Passou a tomar banho depois do jantar, lavar e escovar os cabelos, dizendo à mãe que adiantava a vida para o dia seguinte. Esperava todos dormirem, trancava-se no quarto e operava a transformação: a blusa preta decotada, o batom, uma sacudida nos cabelos pra ganharem volume. Sentava-se e esperava.

Muitas vezes o via on line, mas não tinha autorização para abordá-lo. Devia esperar em silêncio ser chamada. Não podia navegar, não podia conversar com mais ninguém pois lhe exigira um MSN exclusivo, sem mais ninguém adicionado. Ficava horas em silêncio, olhando e esperando. O coração disparava quando a janela piscava, indicando que fora requisitada. Respondia da forma combinada: poucas palavras, diretas, objetivas... "sim, Senhor".

A cada dia ELE lhe impunha uma série de tarefas para serem executadas na hora, na presença dele, ou depois, sozinha. Vez por outra lhe fazia um afago, um carinho, uma vaga promessa de um dia encontrá-la, quando se mostrasse pronta, completa.

Os dias passavam... As tarefas transformaram-se em pequenos castigos: uma bola de ping-pong usada dentro da calcinha, um pregador no seio esquerdo, para dormir; uma noite passada no chão, nua. Tudo a encantava pela inovação que trazia ao seu dia-a-dia.

Esperava a próxima surpresa, a novidade engendrada por ELE para fazê-la desabrochar. Sequer questionou quando os pedidos se tornaram mais invasivos de sua realidade: o telefonema no meio da manhã para dizer "bom dia, Senhor"; o plug usado durante as compras no mercado; o prendedor nos seios para ir à missa, expiando seus pecados pela dor, na devoção ao santo e a ELE. Nada lhe incomodava, tudo passou a girar em função da vontade dELE.

Expunha seu corpo na webcam e submetia-se às humilhações pelo descuido em suas formas. Abria suas intimidades e concedia a ELE todas as fantasias de dor e prazer que podia ter imaginado existir ou não, mas que ELE lhe apresentava. Fechou-se em outro mundo, governado pelas vontades dELE, déspota e deus, a brincar com o poder de levá-la ao céu ou ao inferno, com sua presença ou ausência, silêncio ou voz de comando. Gozou, como nunca imaginou ser capaz ou possível sentir. E, quanto mais gozava, menos era capaz de perceber o distanciamento que, aos poucos, começava a se construir entre eles.

Noites passaram sem que ELE sequer lhe dirigisse a palavra, mesmo estando on line por horas e ela, esperando. Uma vez ousou dirigir-se a ele, mandando um simples emoticon de beijo e recebeu a ríspida resposta para calar-se.

Resolveu surpreendê-lo: publicar fotos suas, com legendas de dedicação, submissão eterna, entrega de corpo e alma. Nada. Nenhuma palavra, nenhum comentário.

Foi além: tatuou as inicias dele sobre o seio esquerdo. Fotografou e publicou. Escreveu a mais linda declaração de amor que sua emoção permitiu. Nada.

Criou um perfil como cadela dELE, de coleira e algemas, publicamente se dedicando a servi-lo, a satisfazer-lhe todas as vontades, dando seu corpo para torturas, marcas e usos que ELE pudesse desejar, mesmo que vindos com a marca de fogo do Inferno.

Essa, talvez, tenha sido a gota d´água para ELE: a exposição pública de sua imagem. Naquela noite ELE chamou-a de imediato: quem lhe havia dado autorização para expô-lo? Quem era ela para ligar-se a ELE daquela forma? Será que não entendeu que era um segredo entre eles, uma concessão que ELE fazia para ela descobrir-se? ELE era o Mestre a iniciar-lhe, mostrar-lhe caminhos por onde seguir, proporcionar oportunidades de exploração do corpo dela, rompendo barreiras, superando medos. ELE a havia construído mas não para o próprio desfrute, apenas para dar-lhe condições de seguir viagem, sozinha.

Nunca lhe prometeu nada, nunca fizeram nenhum acordo, nunca lhe disse que seria dELE um dia. Não a queria, não porque não reconhecesse o valor da submissão dela, apenas não lhe interessava. Foi seu professor, mentor, guia, seja lá que título ela quisesse lhe conceder e havia deixado claro isso desde o início. Seguiu-o porque assim desejou, porque estava ávida desse conhecimento e desse prazer.

Era chegado o fim, ela que seguisse um novo caminho, que saísse pelas portas do Inferno, ou adentrasse às dos Céus, porque ELE não tinha certeza onde ela tinha feito sua morada. Sabia apenas que não queria habitar esse mundo com ela.


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