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Seção C O N T O S
O dominador Ursus e a escrava exibicionista. by Márcia Janeiro/2006 |
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Ele a conhecera no pagode do casamento da prima do Nelsão, o pasteleiro. De cara, achou-a linda, corpo perfeito, magnífica. Concluiu que ela era a mulher mais deslumbrante que ele já havia visto. Por isso não tinha esperanças de que ela, ao menos, lhe notasse. Por isso ficou surpreso quando ela trouxe um pratinho de maionese com asa de frango, e ofertou a ele. "Podia ofertar muito mais", pensou ele com seus botões. Instintivamente pressentiu que ela tinha alma submissa, pressentimento reforçando quando ela ofereceu-se para descascar uma pokan, que dividiram entre beijos apaixonados. Naquele mesmo dia já trocaram telefones e segredos. Suelen Aparecida (sim, era esse o nome dela) confessou-se uma escrava. Não uma masoquista, e sim uma cadela! Uma escrava exibicionista. Ursus jamais havia conhecido uma exibicionista antes, por isso ficou visivelmente interessado, Descobriram também que tinha muitas outras afinidades: músicas, comidas e a forma de viver, de ser. Em menos de uma semana ela já havia mudado para o apartamento dele. E deram início então a um tórrido romance.Suelinha, como ele a chamava, tinha lá seus defeitos...Vaidosa demais, não dormia sem cremes e bobies no cabelo. Além de uma viva obsessão por dietas, massagens. E como adorava ser exibida em público! Ursus pensava, com saudades, na primeira vez que a exibira. Meio dia, avenida Paulista, ela trajando uma saia de onça, um tomara-que-caia vermelho-rubi, meias arrastão, sandálias douradas e óculos "gatinho". Ao atravessar a rua, dois carros se chocaram, os motoristas deslumbrados com aquela sensual aparição. Um homem que afixava um letreiro acima de uma marquise, despencou do andaime! Ninguém naquela avenida conseguia tirar os olhos de Suelinha. E ela majestosa, balançava toda sexy e com ar blasé a estola de raposa que adornava seu lindo pescoço. Mas Su não era apenas sensualidade: era compulsiva também... No prédio que moravam, ela exibia-se para o porteiro, síndico, para o vizinho do 59 e mesmo para a senhora do 41. Eram também brindados pela visão dos dotes físicos de Suelinha o carteiro, o encanador, o anão que era o faz-tudo do prédio, etc, etc, etc. Mas Ursus, embora fizesse desse exibicionismo da sua cadelinha um pretexto para merecidos castigos, fingia não gostar. Mesmo assim, a cada dia era fortalecida uma harmoniosa relação entre Dom e sub. E viviam um maravilhoso 24/7, ele ligando do escritório, pelo menos, 24 vezes, invariavelmente todos os sete dias da semana. URSUS, como legítimo Dono, colocava-a na linha e era por demais severo, como um bom Dominador deve ser. Ela mesma pedia uma surra com palmatória, pelo menos três a quatro vezes por semana. E nosso herói não fazia por menos: espancava-a sem dó. Depois de cada surra, Suellinha sempre agradecia: "-Não há nada melhor para combater a celulite, ela dizia, ainda enxugando as lágrimas, mas com ar satisfeito e feliz." Ela era apaixonada ainda pelo gozo do seu Dono. Recolhia com meticulosidade, cada gota do sêmen do seu homem num cálice e depois misturava ao viscoso líquido creme Nívea, óleo de amêndoas, vitamina. Assim ela mesma preparava o que dizia ser um poderoso anti-rugas que guardava sempre bem tampado num vidro, na porta da geladeira. Fazia potes e mais potes do tal creme. Começou fazendo para uso próprio, depois montou um lucrativo negócio, revendendo o creme pela vizinhança. "Ahhh, que submissa!", pensava Ursus, entre um copo de rabo-de-galo e outro. As coisas começaram a ruir, quando ela manifestou humildemente o desejo de ter uma tatuagem (mais uma, pois tinha já 19 tatoos e 11 piercings) a "marca" de seu Dono. Nosso herói não tinha nenhuma "marca" própria, mas ela estava obcecada por essa idéia. Então, numa tarde que se exibia a esmo, viu um jornal árabe numa esfiharia perto do escritório, encantando-se com algumas letrinhas arabescas que davam a impressão de conter uma mensagem profunda, exótica, ritualística. Estava resolvido o problema, pensou, enquanto desenhava, meticulosamente, as letras árabes. A tatuagem foi feita, pouco acima do seio esquerdo, o único lugar disponível. Ursus, que havia vivido sete anos em Bagdá, como motorista de táxi, ao ver a tatuagem mal conteve o riso. Depois, demonstrando seriedade, disse que a tatoo o excitara e colocou-se em posição para oferecer mais matéria prima para os cremes de sua adorável sub. uelinha ficou intrigada, queria por que queria saber o significado da tatuagem de qualquer jeito. URSUS inventava uma história de segredo, mencionava até a cabala. Mas ela estava obcecada, começando a pesquisar obstinadamente até que conseguiu a tradução. Foi aí que seu sólido castelo de volúpia, de êxtase e servidão, instantaneamente desmoronou. Foi apenas na volta do pronto socorro (essa cadela o mordera na mão com tal fúria que ele precisou levar 13 pontos na mão esquerda) que ele teve coragem de revelar ao Tadeu Antão, o síndico que o socorrera, o significado das letrinhas árabes, tão bonitinhas: "SOU APENAS UM CAMELO. JAMAIS SEREI UM DROMEDÁRIO". Nosso herói então fez algo que um Dominador jamais deve fazer. Mas as circunstâncias justificaram tal loucura. Ursus suplicou, implorou, chorou e, humildemente, pediu perdão. Mas o ato falho do até então rigoroso Dom de nada adiantou. Naquela mesma noite Suelinha fugiu com o entregador de pizzas, certificando-se antes que ele não sabia uma única palavra em árabe. |
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