Seção A R T I G O S
182:   Liturgia BDSM

Agosto de 2008

Transcrito, com autorização, da
comunidade orkut BDSM Sem Culpas
Autor: Mestre Phantom

Uma breve análise do termo "liturgia" e sua aplicabilidade no universo BDSM.

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Liturgia BDSM

INTRODUÇÃO

Em minha breve incursão pelo universo BDSM, tenho percebido, com certo espanto, a carência de um cabedal teórico solidificado e disponível a toda a comunidade indistintamente – especialmente à vasta comunidade que pratica essa sublime arte no território brasileiro.

O fato é que, ainda que bastante disseminado, o BDSM brasileiro parece ter sido pouco pensado até bem recentemente. O advento das listas de discussão na internet mudou tal quadro, trazendo à tona das mentes pensantes temas bastante complexos e controversos, mas, por outro lado, fundamentais para quem deseja praticar o BDSM dentro dos parâmetros do são, seguro e consensual.

Atendendo ao desafio de minha queridíssima amiga Vaca Profana, coordenadora e principal moderadora do grupo BDSM Sem Culpas, debrucei-me sobre a literatura disponível na internet e sobre milhares de e-mails de listas de discussão no afã de compreender o que é que o BDSM brasileiro entende por "liturgia". O resultado foi que concluí não estar sendo o termo bem compreendido e muito menos bem aplicado – ao menos pela grande massa dos praticantes. Assim, à revelia do fato de ser neófito na prática BDSM – tenho, ao momento deste artigo, pouco menos de três anos de prática –, atrevo-me a, lançando mão do conhecimento obtido em décadas de práticas de condução litúrgica em minha vida secular, apresentar uma análise mais pormenorizada do termo "liturgia" a fim de, com não pouca ousadia, propor uma aplicação mais consciente e precisa do mesmo.

Antes de mais nada, faz-se imprescindível externar meus protestos de profundo respeito àqueles que, praticantes do BDSM há décadas, possuem seu próprio conceito de liturgia. Não é o objetivo deste artigo desmerecê-los ou desqualificá-los em qualquer sentido. Quando muito, o aqui exposto pretende levá-los à reflexão e, quem sabe, permitir-lhes aprimorar os próprios conceitos, a fim de que possam prosseguir no aperfeiçoamento de suas próprias práticas. Sintam-se à vontade, contudo, para discordar ou mesmo ignorar o aqui proposto.

Também não é pretensão deste artigo fechar questão em torno do tema. Antes, meu desejo é suscitar o debate em bases mais objetivas e, se não for por demais pretensioso, fazer germinar entre nós um arcabouço teórico mais coeso e consistente.

  1. ETIMOLOGIA

    O vocábulo "liturgia" tem origem grega e se compõe de duas outras palavras: leitos (público) e érgein (fazer). Originalmente, possuía dois significados: um religioso e um profano.

    O significado religioso do termo se deve ao fato de os tradutores da Septuaginta2 o terem utilizado para se referir ao serviço religioso prestado no Templo. Tal foi a conotação que, por motivos óbvios, o termo adquiriu e manteve na sociedade cristã ocidental.3 Entretanto, "liturgia" possui um outro significado que, embora perdido no tempo, era seu significado original. Em termos simplistas, "liturgia" significa "coisas que se fazem publicamente". Platão e Aristóteles usavam o termo para se referir àquelas cerimônias de caráter público.4 Assim, as cerimônias oficiais do governo de Atenas eram chamadas de liturgias.

  2. CONCEITO

    O que é liturgia, então?

    Excluída a conotação religiosa, liturgia é um ato de caráter público e compreende os elementos contidos nesse ato. A rigor, portanto, liturgias só poderiam ser realizadas por igrejas ou por órgãos oficiais do governo. Mas o BDSM não é uma religião. Então, como é que fica?

    Bem, aqui entra uma proposta: tomar o termo em seu significado original e adaptá-lo – como fez a Igreja – ao contexto do BDSM.

    Trazido para dentro desse contexto, o termo "público" é que deveria ser adaptado.

    Qual seria, então, o conceito de público? Simples: tudo aquilo que não é particular, ou seja, tudo o que não envolve somente e diretamente as partes interessadas. Nesse sentido, "partes interessadas" seriam apenas aquelas subordinadas à mesma hierarquia dentro do BDSM (dominadore(a)s e seus respectivos submisso(a)s) ou as pessoas que participam diretamente de uma transação que envolva duas ou mais hierarquias (transferência de posse, por exemplo).

    Portanto, o conceito de liturgia no BDSM ficaria assim:

    Conjunto de elementos formais dos atos públicos realizados pelos praticantes do BDSM.

  3. LITURGIA E RITUAL

    Aqui reside a maior parte das confusões observadas no uso do termo "liturgia".

    Toda liturgia é um ato ritual, mas o oposto não é verdadeiro.

    O ritual pode ser definido como o conjunto de práticas adotadas por uma organização na persecução de seus atos solenes, assim como as fórmulas e elementos formais da mesma.

    Assim, a nomenclatura dada aos indivíduos do grupo (top, bottom, dominador, submisso, adestrador, mestre, mentor e por aí a fora) são elementos rituais, mas não litúrgicos. Assim também as fórmulas cerimoniais utilizadas dentro de sessões de caráter privativo a uma mesma hierarquia.

    O relacionamento entre um mentor e seu pupilo ou entre um mestre e seus subordinados tem caráter ritual, mas não litúrgico.

    O contrato entre dominador e submissos é um elemento ritual, mas não litúrgico.

    Em suma: ritual é o conjunto de elementos formais da prática BDSM; liturgia é apenas um desses elementos.

  4. COMO ESTABELECER UMA LITURGIA

    A liturgia é, por definição e natureza, um elemento formal. Isso significa que seus componentes também serão revestidos de formalidade: será regida por normas específicas e, em alguns pontos, rígidas.

    Em linhas gerais, estabelecer uma liturgia significa definir os atos e objetos litúrgicos e seus respectivos significados.

    Os atos podem ser executados em uma ordem preestabelecida ou ser ordenados de acordo com a conveniência de cada solenidade. O mais importante é que determinado ato sempre seja executado de determinada forma e que tenha um significado especial que seja conhecido de todos – ou, ao menos, passível de o ser.

    Também os objetos litúrgicos – que vão de vestimentas e paramentos a objetos decorativos ou funcionais – devem estar presentes em uma liturgia e conter um significado especial.

    A fuga da liturgia descaracteriza o evento. Portanto, quanto mais simples a liturgia, maiores garantias haverá de que será executada com sucesso.

    O BDSM não possui uma liturgia fixa. Cada grupo tem a prerrogativa de estabelecer a sua. O fundamental é que, uma vez estabelecida, seja cumprida e só seja alterada por motivos justificáveis.

  5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Como dito no início, o presente artigo não pretende esgotar o assunto "liturgia". Espero sinceramente que o debate se aprofunde.

    Entretanto, é necessário lembrar que, sendo o BDSM uma prática ritual, se faz necessária uma melhor definição de seus elementos, em termos formais, para que a prática se consolide de forma mais salutar para todos os seus participantes. Nesse sentido, é preferível o uso do termo "liturgia" apenas para aqueles elementos compositores dos atos revestidos de publicidade.

NOTAS

  1. SEQUEIRA, F. M., Liturgia. Disponível em , capturado em 07/11/2005.
  2. A Septuaginta é uma versão do texto no Antigo Testamento do hebraico para o grego.
  3. SEQUEIRA, op. cit.
  4. Dizzionario Etimologico Online. Liturgia. Disponível em , capturado em 07/11/2005.
  5. Michaellis define "ritual" como "conjunto de regras a observar". Em sua definição, um rito é um "sistema de fórmulas e práticas das organizações maçônicas". Sendo as organizações maçônicas uma espécie de grupo social que guarda algumas semelhanças com um grupo BDSM – hierarquia, solenidade e caráter privativo são apenas algumas delas –, nada nos impede de expandir seu conceito de "rito" para abarcar também o universo BDSM.

Em artigo posterior, pretendo abordar a natureza das normas e as formas de estabelecimento das mesmas. Por ora, basta dizer que há normas positivas (escritas) e normas consuetudinárias (baseadas tão somente nos hábitos tradicionais – o famoso "vamos fazendo"). Sou a favor das normas positivas por inúmeras razões, mas a principal delas é a fácil aplicabilidade.


RITO E RITUAL

Introdução

Manusear bem as palavras não é menos importante do que conhecer os segredos das cordas, manipular corretamente as velas ou saber aplicar com técnica chibatas e chicotes. Entretanto, temos visto – e isso não apenas no universo BDSM – um certo despreparo por parte daqueles que fazem da palavra um instrumento.

A palavra certa usada com precisão tem o condão de converter em realização de desejos o que, em outro contexto, seria não mais do que uma série de atos de selvageria e barbárie.

O BDSM é uma construção mental. É fruto da imaginação humana. Não existe na natureza. Não fazendo parte do cotidiano da sociedade como um todo, pertence ao domínio do que se costuma chamar de fantasia.

O BDSM é também um meio social. Nele, diferentes indivíduos se reúnem para partilhar certos objetivos em comum.

Diferente do que pode parecer à primeira vista, o BDSM não é uma prática tão excêntrica assim. Com efeito, ele guarda inúmeras semelhanças com outros grupos sociais, como grupos religiosos, sociedades secretas e, em alguns aspectos, até com agremiações esportivas. Uma das características que todos esses grupos têm em comum é a necessidade da existência de um certo conjunto de símbolos e normas que permitam aos indivíduos relacionarem-se uns com os outros de forma satisfatória. Tal conjunto recebe o nome de ritual ou protocolo.

Neste artigo, abordaremos a questão do ritual e dos ritos.

Para facilitar a comunicação, traçaremos paralelos com uma atividade que todos os brasileiros conhecem muito bem: o futebol. Nessa prática desportiva encontramos elementos que são comuns a qualquer grupo social e que, quando lhe faltam, ocorrem transtornos no relacionamento entre os indivíduos.

Outro paralelo a ser explorado é com a prática religiosa. Não que o BDSM constitua, em si, uma religião, mas certos aspectos formais compartilhados por ambas as atividades já fazem parte do inconsciente coletivo e abordá-los sem referência direta ao ritual religioso resultaria em um linguajar extremamente técnico e de difícil compreensão por parte de alguns. Ainda que sob o risco de parecer enfadonhamente repetitivo, rogo ao leitor que não expanda a comparação entre BDSM e religião para além dos aspectos formais de ambos, sob o risco de se deturpar o caráter lúdico da prática BDSM, alçando-o a categoria à qual não pertence, com conseqüências nefastas para o participante.

  1. Rito

    Rito é simplesmente a seqüência de atos formais a serem realizados na execução de determinada atividade.

    Uma partida de futebol obedece a um rito: os dois times entram em campo; os jogadores assumem suas posições; a bola é colocada no meio do campo; o juiz apita, dando início à partida; e assim por diante. O mesmo ocorre com determinados atos durante a partida. A expulsão de um jogador por indisciplina só é feita após duas advertências; já a expulsão por falta grave é imediata. Cada vez em que um jogador infringe uma das regras do jogo, é submetido a uma penalidade. Todos esses atos, que pertencem à atividade "partida de futebol", obedecem a ritos.

    Há ritos mais flexíveis e outros mais rígidos. A eucaristia, em uma missa católica, é um rito bastante rígido: todos os aspectos formais devem ser observados rigorosamente, desde as palavras pronunciadas pelo sacerdote até os gestos feitos pelo fiel. Já a expulsão de um jogador em uma partida de futebol é rito bastante flexível: nele, não importam muito as palavras proferidas pelo jogador – nem mesmo aquelas que fazem referência à mui digna genitora do árbitro.

    A rigidez de um rito é determinada, entre outros fatores, pela intensidade formal que se lhe deseja emprestar.

  2. Ritual

    Um ritual é muito mais do que simplesmente uma coletânea de ritos.

    O dicionário Michaelis assim define ritual: Livro que contém os ritos, ou a forma das cerimônias de uma religião. 2. Cerimonial. 3. Conjunto de regras a observar; etiqueta, praxe, protocolo.

    O ritual engloba todos os aspectos formais de uma determinada atividade: os objetos utilizados, as nomenclaturas, as vestes, os símbolos, os aspectos formais das cerimônias – ou seja, a liturgia –, enfim, tudo o que diga respeito à formalidade da atividade.

    A seguir, veremos alguns dos mais relevantes aspectos de um ritual.

    1. Os símbolos

      Uma das mais notáveis características do ser humano é a capacidade de produzir e de reconhecer símbolos. Com efeito, todo o raciocínio é simbólico por natureza.

      Um símbolo é um elemento capaz de produzir, naquele que com ele se depara, uma associação diversa da original.

      Tomemos um pedaço de papel amarelo. Originalmente não passa de um pedaço de papel. Você pode usá-lo para anotar o telefone de sua namorada ou de seu namorado, por exemplo. Quando, entretanto, durante uma partida de futebol, um pedaço de papel amarelo é sacado do bolso da camisa do árbitro, ele adquire uma conotação especial: trata-se de uma advertência a um dos jogadores. Dentro do ritual do futebol, o cartão amarelo é um símbolo.

      Mas, para que um símbolo seja eficaz, precisa ter seu significado conhecido por todos os que o interpretam.

      Imagine uma partida de futebol entre brasileiros e sul-coreanos. No meio da partida, o árbitro alemão saca um cartão marrom e mostra a um jogador. Qual o resultado? Nenhum. Um cartão marrom não significa absolutamente nada no ritual do futebol.

      Quanto mais simples o símbolo, mais eficiente ele será, pois mais rapidamente se fará a associação dele ao seu conteúdo na mente do intérprete. Por isso, devem ser evitadas elaborações demasiado complexas na construção de um símbolo, especialmente se os elementos constitutivos de tal elaboração não forem facilmente perceptíveis ou reproduzíveis.

      Retornando ao nosso exemplo: um cartão amarelo é um símbolo extremamente eficaz. Basta ser empunhado pelo juiz de futebol para que todo aquele que se depara com ele entenda seu significado. Agora imagine se só fosse símbolo válido o cartão que tivesse a coloração amarelo-canário, com textura de couro de boi, nas dimensões de 12x8cm e com 1,25mm de espessura...

      Os símbolos se manifestam de diversas maneiras:

      1. O personagem

        Diz respeito ao papel que cada um representa dentro de um ritual.

        Preciosistas poderão dizer que BDSM não é teatro. Contudo, o fato é que todo ser humano constrói personagens a partir de si mesmo e é através desses personagens que se relaciona com outros seres humanos. Não se trata, portanto, de mera representação teatral, mas da definição de certas características que acompanharão o indivíduo durante sua prática BDSM.

        Construir um personagem significa associar ao indivíduos determinadas características, que vão da postura física a gestos, modo de falar e vestes. É meio difícil, por exemplo, conceber um submisso empunhando o chicote e brandindo-o ameaçadoramente para seu dominador.

        A grande massa das discussões em listas se concentra exatamente na construção dos personagens: o que é que se espera de um dominador? E de uma submissa? Que papel deve exercer o mentor? O que é, na verdade, um mestre? Será que tal ou qual conduta é digna de tal personagem?

      2. Efígie

        Uma efígie é uma representação visual de uma pessoa. Meu brasão, por exemplo, é uma efígie. Onde for visto, se saberá que o objeto ou contexto diz respeito a mim de alguma forma.

        As efígies são de muita utilidade em um ritual. É recomendável que, em especial, os dominadores possuam efígies.

      3. Objetos

        Os objetos, quando se lhe emprestam significados, possuem grande valor ritual.

        Uma vela, por exemplo, pode simbolizar uma sessão ou cena. Quando aquela vela em especial estiver acesa, significa que a sessão ou cena está em curso.

        A coleira é um dos mais claros exemplos do uso ritual de um objeto.

      4. Gestos

        O excesso de gestos rituais pode tornar uma cena enfadonha ou mesmo fazê-la beirar o ridículo. Entretanto, revestir certos gestos de significado ritual pode ser uma forma interessante de dar uma conotação mais lúdica à cena, aumentando o prazer dos participantes.

      5. Vestes

        O uso de determinadas roupas – ou de roupa nenhuma –, quando revestido de significado, enriquece o ambiente.

        Os trajes podem indicar, por exemplo, a posição da pessoa na hierarquia do grupo. Podem também ser idealizados de forma a facilitar a execução de determinado ato ou simplesmente para dar prazer visual.

    2. Hierarquia

      A noção de hierarquia é intrínseca ao ritual BDSM. Por definição, um submisso está em posição hierárquica inferior à de seu dominador. Entretanto, tal noção pode se estender para além da relação D/S, caso seja a vontade dos participantes.

      Na Europa, há grupos que possuem uma hierarquia mais solidificada, a qual extrapola a relação D/S. São as famílias formais (formal families), ordens ou clãs. Nelas, há uma hierarquia entre os dominadores, de forma que um deles é quem determina, em maior ou menor grau, os aspectos rituais do grupo.

      Tal estrutura tem suas vantagens, como a disseminação de técnicas e a resolução de conflitos entre os participantes. Contudo, é fundamental que seja implementada de modo consciente e cuidadoso, a fim de evitar ferir suscetibilidades – mormente entre dominadores – e de evitar expor desnecessariamente a vida privada de um indivíduo.

      Em artigos subseqüentes, explorarei mais a questão das ordens ou clãs, por acreditar ser uma prática salutar e passível de dar origem a inúmeras fantasias.

Considerações finais

A junção dos diversos símbolos com fórmulas adequadas pode resultar em um ritual rico e prazeroso.

Alguns atos podem revestir-se de caráter especial e, amparados nos símbolos, gerar ritos interessantes.

O mais importante é que se tenha consciência de que, mesmo na implementação de um ritual, o que se busca é o prazer de cada indivíduo e o aprimoramento das práticas do grupo.

Nos próximos artigos, é minha intenção abordar com mais profundidade a prática BDSM em si, apresentando e analisando alguns dos ritos mais conhecidos da comunidade internacional e outros que pretendo elaborar para uso em meu domínio. Sim, pois estou em fase de construção do ritual de meu domínio e creio ser esta uma grande oportunidade para analisar pormenorizadamente os elementos que comporão tal ritual.

Um grande abraço a todos, Phantom.

 


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