Seção A R T I G O S
169:   O Povo: Prazeres da dor

Março de 2008

Transcrito do Jornal O Povo, das URLs abaixo:

  • http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/773129.html

  • http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/773137.html

  • http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/773138.html

  • http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/773130.html

  • http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/773142.html

Autor: Pedro Rocha, da Redação

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Prazeres da dor

Você está prestes a entrar em um caderno com material impróprio
para menores de 18 anos. Os assuntos tratados aqui são referentes
aos múltiplos aspectos do mundo sadomasoquista.
O Vida & Arte Cultura ouve e debate histórias de dor e prazer.

Sexta à noite, boate Kubalada, Centro. Ela senta de pernas cruzadas, impecável. Sorve coca-cola por um canudo. Não reconheço. À sua direita, Tiago ajoelha aos seus pés, lambe sua bota preta. Pende uma barriga branca, sobra do cós da saia, brilhosa, 10 centímetros, no máximo. Látex preto sobre a face, qual carrasco. Levanta-se. Baba do calor do látex, tem olhar calmo. Passa a mão em seu joelho. - "Tá doendo?", ela pergunta. - "Não, minha dona", e se alinha, em pé, ao lado. Um rastro arrastado de corrente tilintando. Carlos Henrique vem, passos curtos. Veste uma empregada doméstica alta, esguia, erótica. Máscara branca mostrando outro rosto. Ela mesma desenhou o figurino. Cotovelos e tornozelos algemados. Uma coleira no pescoço, qual cachorro.

Tiago, em pé, abre as pernas e segura com as duas mãos a teia de correntes pendurada em uma das paredes da boate Kubalada. É uma das primeiras cenas da noite. Ele é escravo de Amanda, a Rainha Frágil, e prepara-se para uma cena de spanking. Ela bate com um cane em suas nádegas, primeiro sobre a saia. O cane é uma vara de bambu ou rattan, que geralmente tem entre 30 e 60 centímetros de comprimento, conhecido, particularmente, pelas marcas, que se revelam de fato na manhã seguinte. Depois, sobe a saia, arria a sunga, e lapeia direto a pele. Coisa rápida. Rainha Frágil está preocupada com a produção da festa, por isso fará poucas cenas na noite.

"Explore o mundo da dominação e submissão, prazer e dor na masmorra urbana, onde as correntes libertam e as máscaras expõem", lê-se no topo do convite para a festa Profania, acontecida no dia 7 passado. A proposta: "organizada por um grupo de praticantes fetichistas de Fortaleza, a Profania é uma festa onde fetiches são expostos sem preconceitos, em um ambiente de alegria, fantasia e consensualidade, propício para performances eróticas, em que os participantes trocam experiências entre si, realizam e interagem suas fantasias uns com os outros, e provocam olhares alheios".

Por trás de tudo isso, algumas letras fundamentais. BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), que agrega uma infinidades de fetiches eróticos, rotulados tradicionalmente como transtornos sexuais. Sua face mais conhecida é o sadomasoquismo, com seus papéis de dominação e submissão. Mas suas possibilidades são incauculáveis e seus praticantes escapam aos estereótipos.

O BDSM confunde fantasia e realidade. Pode ser uma prática bastante delimitada no tempo e espaço, restrita às cenas, que é como se chamam as relações sexuais sadomasoquistas, que são interpretadas e vividas aos mesmo tempo, sem uma clara diferenciação entre realidade e fantasia; ou mesmo um modelo de vida para seus adeptos, estando presente no cotidiano de alguns.

Um ou outro, quase todos os praticantes de BDSM em Fortaleza se esgueiram em seus dia-a-dia, escondendo a prática pelo preconceito da sociedade. "Como é que você acha que vão encarar, por exemplo, um médico assumidamente sádico?", pergunta Rainha Frágil, praticante e ativista do BDSM em Fortaleza.

Assim como a prática, o termo sadomasoquismo parece ter múltiplos entendimentos. Originado da junção de referências à obra dos escritores Marquês de Sade e de Sacher-Masoch, o termo passou por uma conceituação científica pela psiquiatria do século XIX, que classificou como aberração sexual a prática, passou pelas teorizações de Freud, até chegar aos nossos dias, diluído em referências superficiais no dia-a-dia, como a personagem Tiazinha.

Jorge Leite Júnior, doutorando em antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acha que, atualmente, há um novo ingrediente nessas disputas discursivas: "Hoje, os praticantes estão tendendo cada vez mais, como todos os discursos relacionados ao sexo, a uma autonomia cada vez maior. O discurso dos adeptos da prática social diverge do discurso científico em alguns pontos, e andam em outros de mãos dadas, felizes e contentes. Mas na grande maioria das vezes vai um pra cada lado", analisa.

É dizer que cada um tem a liberdade de gozar sua sexualidade da forma que bem entender, desde que se respeite outra três letras que acompanham as BDSM: SSC (São, Seguro e Consentido). "São três fronteiras que ajudariam a definir o que é e o que não é BDSM. Somente as atividades que levam em conta a segurança física e mental, bem como o desejo de participar de todos os envolvidos, podem ser consideradas BDSM", escreve Bruno Zilli, doutorando em Ciências Socias pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em seu artigo publicado neste caderno.

Algo ainda pouco inteligível e respeitável para a maior parte da sociedade, que desconhece. O Vida & Arte Cultura decidiu sair do mundo dos "baunilhas", termo que os adeptos se referem aos não-praticantes, e enveredar por algumas questões do BDSM. Nas próximas páginas você poderá ler mais sobre o tema e conhecer parte da história de Amanda, Tiago, Carlos Henrique e Luciano.(todos nomes fictícios).

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Uma rainha e seus escravos

Ela é uma rainha. Eles, seus escravos, suas propriedades, mas cada qual com seus dengos, seus fetiches. Ela ama o amor que eles podem lhe dar

Segunda-feira. Uma mulher de meia idade entra no sex shop, dirigi-se à plateleira de filmes pornôs e, em meio a monotonia de loiras peitudas arreganhadas, pega o DVD Puck - o duende perverso. Um filme, sem sinopse, baseado na obra do clássico poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare.

- "Você tem algum filme de sadomasoquismo?", pergunta à Amanda, balconista e dona da loja, depois de constatar que a perversão de Puck não é o que procura.
- "Ah, não. Nunca tem coisa boa desse tema. Eu também tenho muito interesse nele", responde Amanda.

No primeiro pedido de produtos que fez para abrir a loja, há 10 anos, caprichou nos artigos sadomasoquistas. Arreios, chicotes, cintas, plugs. Estava conhecendo e tinha muita curiosidade nos instrumentos. Havia apenas um sex shop na cidade. Ela aproveitou que estava fechando sua pousada e mudou de ramo, abriu sua loja, mesmo tendo medo de entrar em uma. "Eu era como qualquer senhora da minha idade, tinha medo, vergonha. Eu tinha vergonha do que ia encontrar lá dentro".

"O primeiro sex shop que eu entrei foi o meu. Eu abri um sex shop pra entrar", brinca. Hoje, ela, 44 anos, faz uma leitura dos hábitos sexuais dos fortalezenses por trás de seu balcão. "As pessoas que entram aqui são as pessoas mais mamão com a açúcar. Meninas de 20 e poucos anos, até 40, que vêm comprar coisas para o namorado. Esse é o primeiro cliente, o mais freqüente. Depois são casais que vêm juntos. Quem compra mais é mulher. Quando vem três mulheres, não compram. Daí voltam sozinhas. No casal, geralmente, é ela que escolhe.

Levam brinquedinho, já estão levando pênis também. Tem hora que junta aqui um monte de homem, eles estão tudo à vontade, mas se entrar uma mulher... Eu já vi várias vezes essa cena. Não foi uma vez, não. Ela entra, chega aqui: 'Sabe aquele pênis, ali'. Compra na boa e eles ficam tudo sem jeito, se não saírem", conta.

Antes, chegavam a ligar para ela perguntando se era necessário tirar a roupa pra entrar. "Isso já é um fetiche", emenda Carlos Henrique, sobre a pergunta. Conversamos na sex shop, dois dias depois da festa, nos intervalos de ausência de clientes. Ela continua: "Eu lembro que uma coisa que aparência muito aqui era menina branca dizendo: 'Ó, meu namorado quer que eu penetre ele', achando que o namorado era gay. Hoje, não. Vem o casal, compra um pênis. Ou vem ela sozinha: 'Aí, ele me pediu, eu vou comprar, porque ele quer que eu penetre ele'.

O homem não muda, talvez mude com a parceira, entre quatro paredes. Eles só compram produtos que retardem a ejaculação, que ajudem a ereção e esse que ajuda a aumentar o pênis. O homem ainda tá achando que o negócio é penetrar".
Ela fala com propriedade. Em São Paulo, no fim dos anos 1970, transou em profusão, carregando a bandeira da geração de quebra de tabus. "A gente transava de boa. Eu digo que transei com metade da lista telefônica de São Paulo. Eu digo isso, porque eu conheço a menina que transou com a outra metade. Mas eu fui ter o primeiro orgasmo com 32 anos, porque a gente não tinha educação sexual. A gente transava mas não sabia o que tava fazendo.

Hoje, as meninas sabem o que tão fazendo, eu percebo aqui. Eu só sabia abrir as pernas e eles também só sabiam fazer isso. Nunca gostei muito de penetração, que é uma coisa complicada pra dizer a um companheiro. Eu fazia uma viagem de como eu estivesse sendo submetia, daí eu tirava prazer, mas, se fosse a penetração pela penetração, não ia me dar isso. Muitas coisas que eu imponho a ele (referindo-se à Henrique, próximo), na verdade, são coisas que talvez eu gostaria que fizessem comigo, mas que eu não tenho coragem. Na hora, minha fantasia sexual era de que eu tava me submetendo ao homem. Eu imaginava que era isso. Alguns, de vez em quando, topavam algumas brincadeirinhas que eu inventava, mas não tinha nome pra isso, eu achava esquisito. O que eu não sabia é que exista o BDSM saudável".

Profania

SadoMazela é o host da noite, algo como um recepcionista performático. É responsável por receber as pessoas, descontrair e regular o dress-code: quem vir vestindo algum fetiche, recebe um vale verde, indicando ingresso mais barato; todos de preto, amarelo; e comuns, em cores, jeans e afins, um papel vermelho.

Vão pagar mais caro. Muitos chegam tensos, encurtam o quanto podem o diálogo com o host, que tenta, extravagante, erotizar a noite com piadas como a do seu querido Benjamin, um pênis preto de borracha, base de seu chicote. "Vou dizer, o cara que tiraram essa fôrma aí é um animal", diz sincero. "Quando eu vi isso aqui na loja, eu pensei: 'Não! Vou ter que usar isso aqui como apetrecho performático'. Minha mãe ficou chocada. - 'Olha, aí mãe'. - 'Sai com as tuas imundices daqui, seu tarado, ateu.' Mas ela dá mó valô, brinca com a minha cara, mas acha legal minhas manifestações artísticas desviantes", fala como um personagem fanfarão cínico.

A Kubalada é uma boate dedicada normalmente ao público de swing, casais que buscam trocar os parceiros. Curiosamente, localiza-se em frente à casa que serviu de fachada para o cinematográfico assalto ao Banco Central - à época ali funcionava uma sauna gay. Naquela sexta, muitos chegaram sem entender claramente o porquê de um homem naqueles trajes ali. Uns dois estrangeiros chegaram apressados. Levaram a ficha vermelha.

"Talvez essa festa sirva até pra popularizar, porque tem muita gente enrustida que parece que tem que dá uma de macaco de imitação pra se motivar. 'Não, eu vi fulano fazer, então posso'. Aí é bom às vezes o negócio acontecer, cara, que muita gente que tá contida vem à tona mesmo, gosta, assume a prática", fala.

Lá dentro, Amanda anda sobre salto fino, próprio para apoiar a ponta nas costas de subalex {RF}, nick de Tiago no universo SM, usados na Internet e, presencialmente, como mais uma composição do próprio personagem de si. Os colchetes representam a submissão à Rainha Frágil. Ele se ajoelha para lamber sua bota, enquanto sente, junto à tudo mais, as lembranças do acidente de moto. O joelho direito de Tiago é trincado de cicatrizes, por isso a preocupação da dona com a saúde de seu escravo. Ele não pode se demorar ajoelhado, pelas seqüelas do acidente. Mas adora lamber bota e pés dela, mesmo que eles tenham marcas de graves queimaduras de um acidente de carro que Amanda sofreu, quase morre.

"Eu sempre fui muito bem resolvido como submisso", diz Tiago com seu sotaque de potiguar. Mora em Natal, onde trabalha como odontólogo. "Eu me sinto assim desde os meus 14 anos de idade, mas como a sociedade é muito fechada e não tinha o advento da Internet, eu vim me descobrir cinco anos atrás, hoje eu tô com 36. Eu via assim muito vagamente as pessoas falarem, nada que fosse assim muito completo, mas quando eu comecei a entrar na Internet, quando eu comecei a freqüentar sala de bate-papo BDSM, eu comecei a conhecer pessoas que me ajudaram no início". Isso foi há uns cinco anos.

Tiago veio a Fortaleza somente para a festa, produzida por sua dona. A festa é uma das primeiras do gênero na cidade. Os dois possuem uma relação de alguns meses, que começou, como muitas, em um sala de bate-papo na Internet. Ele impressionou a Rainha Frágil pela sua abordagem. Normalmente os submissos chegam para teclar com ela afoitos: "Posso beijar teu pé!?". Algo parelho a um homem chegar, cara de pau: "Vamos transar!". Eles conversaram sobre política, música, novela, cotidiano. Aqui e ali, uma deixa. "É uma paquera iguazinha até o momento de fazer o sexo, de ir pra cama", compara Rainha.

Escravo

ideiafix {RF} está preso, feminizado. Tempos atrás, ele começou a mandar alguns contos sobre feminização. Carlos Henrique sempre gostou. Amanda, não muito. Mas ela leu um que lhe excitou, e fez com que a prática de forçar o escravo a se vestir como mulher fizesse ela morder leve os dentes quando me contou isso. Pra ele feminização é a fantasia favorita. "Não me pergunte o porquê. Também não consigo encontrar uma explicação", escreveu por e-mail dias depois da festa. Outra das suas fantasias mais antigas é o cárcere. "Quando criança, adorava ser pego quando brincava de pega-pega".

Ela puxa sua coleira, ideiafix {RF} segue, com as algemas, como se seu corpo de 1,8 metros engatinhasse de pé. Ela o prende numa gaiola adequada ao tamanho, à vista do público da festa. Rainha Frágil tem controle sobre tudo. Conheceu, há mais de 10 anos, a sigla BDSM pela Internet, aliada a mais três letras: SSC (são, seguro e consentido). A descoberta foi trilhada pela Internet, nas salas de bate-papo. Carlos Henrique, em um desses dias, chegou suplicando. "Eu era muito galinha naquele tempo, pegava uma dona, aí ela dizia: 'Agora, você é só meu!'. 'Sim, senhora'. Depois ela saia, eu saia também, trocava o nick e voltava. 'Ajoelhe-se enquanto você digita!'. 'Sim, senhora', sentando. 'Tire a roupa!'. Esperava um pouquinho... 'Sim, senhora'", confessa o fingimento virtual hoje, com 28 anos.

Quando ele descobriu que ela também morava em Fortaleza, ficou ainda mais interessado. Mas, ela sumiu. "Eu pensava direto nela. E não conseguia entender por quê ela não me respondia. Sei lá, comecei a achar que tinha escrito algo que não devia - nos chats há muitas Dominadores que ditam o que o escravo deve ou não deve dizer - ou então que estava me testando. Escrevi vários e vários e-mails por um tempo e então desisti.", relembra.

Amanda havia sofrido um sério acidente de carro. Acordou dois dias depois, demorou para entender. Seu filho lhe contou que tinha sofrido um acidente, o carro pegou fogo e ela queimou 23% do corpo. Passou muito tempo internada, sem imaginar as mensagens enviadas por Tiago, até seu filho lhe dizer: "Mãe, chegou lá um e-mail que tem um cara deitado, amarrado".

Ele enviava fotos que encontrava pela Internet e subescrevia: "Se eu for seu escravo você pode fazer isso comigo".

"Desde criança, seis, sete anos, eu já tinha fantasias com SM, eu imaginava uma menina me usando como cadeira. Uma cena que eu vivo lembrando que era de um desenho que se passava em Beverly Hills, futurista, e tinha um motorista que era apaixonado por uma menina, e a menina era aristocrata, altamente patricinha, arrogante, e ela tinha planos malévolos para acabar com a mocinha. O motorista ajudava, e sempre que algum plano dava errado, ela descontava a raiva dela nele. Teve uma vez, uma cena que eu achei linda, até hoje fica na cabeça. É uma cena que ela abre a porta do carro e tem uma poça d'água e ele se joga e ela passa por cima dele. Eu achava lindo. Eu dormia pensando, transformava as cenas".

Henrique percebia, mas não entendia, nem se agustiava, até assistir, entre os 13 e os 14 anos, um reportagem na TV sobre sadomasoquismo. "Comecei a ler dicionário, enciclopédia, e geralmente era uma coisa negativa, 'distúrbio desviante' não sei o que. Eu pegava os pontos positivos". Aos 18 anos, com a Internet, topou com o BDSM. "Foi um tijolada, de repente, eu chego lá e já tem as regras. Eu ficava imaginando fantasias, fantasias, fantasias, e quando eu cheguo na Internet, eu vi que tem lugares próprios pra isso, tem regras", fala dando a dimensão do impacto do tijolo.

Prazer

Um dia depois da festa, Amanda estava tensa, praticamente sem dormir, obrigada a trabalhar logo cedo no sex shop. Calhou de Luciano, jornalista paulista, 42 anos, estar livre no dia. edgeh {RF}, seu nick, é escravo da Rainha Frágil. Além disso possui uma escrava, é um switcher, ou seja, ora masoquista, ora sádico. É como se Luciano vivesse três papéis. Três, porque ele também possui um casamento que poderia se chamar de "baunilha". "Minha mulher sabe que gosto e que pratico. E optou por ignorar o assunto - basta que eu não deixe mostras de nada, e tudo bem. Ou seja, é uma liberdade consentida. E como ela não suporta nem a idéia de sexo não-convencional, ficamos assim: faço as minhas coisas e evito que ela fique sabendo, embora ela tenha conhecimento disso", explica por e-mail.

Amanda aproveitou. "Eu tava com raiva, porque eu achei um monte de defeito na festa, não dormi, tive que trabalhar. Mandei ele fazer tudo no extremo. Ele gosta de retensão, ele é obrigado a reter a urina, ele gosta de ficar com a bexiga cheia, cheia, cheia, até o limite, e só alivia quando eu permito. E eu tava com essa tensão toda, então 'eu quero que você vá ao extremo, vai beber toda água que você puder'. Ele é todo da consensualidade. E nas regras do jogo eu não posso ir pra uma sessão com raiva, porque eu posso tá misturando sentimentos que são perigosos. Eu pensei que ele ia vir com um sermão. Aí passou um tempo e chegou a mensagem de celular: 'sim, senhora'.", contou. edgeh deu notícias de suas tarefas também por mensagens, depois de Rainha Frágil perguntar como estava. "Me agüentando". "Quase morto". Ele teve que reter por muito tempo a bexiga, além de ter de dormir com um plug de metal no ânus. "Fiz o que disse que faria para deixá-la satisfeita. E ela sabe que eu fiz mesmo - até porque meus próprios níveis de masoquismo não permitiriam que deixasse de fazer...", explica a confiança na dominação virtual.

Relação de Rainha Frágil com edgeh tem contornos mais sádicos, de imposição de sofrimento físico, deferente do perfil de submissão de ideiafix {RF} (dominadora-submisso). Os três são propriedades dela, não podem ter relações com outras dominadores sem a permissão da dona. "Eu não amo o amor dele. O que eu amo não é ele, é o amor que ele pode me dar", diz, referindo-se à Henrique, ao seu lado. "Eu acho que ela tá certa! (risos) Afinal de conta eu sou 'feito' de várias coisas. O amor que sinto por ela é uma delas e é isso que a tem fisgado por todos esses anos", concorda.

Com subalex {RF} a relação é de adoração e reverência, exatamente como um escravo apaixonado por uma rainha. Perguntei a Alex se ele conseguia explicar esse prazer. "É difícil colocar em palavras o que você sente no corpo, mas é uma sensação que liberta sua alma, você fica muito mais leve, você se sente bem, eu me sinto muito feliz. Se eu pudesse definir eu diria perfeito". Perfeito? "Perfeito", diz novamente, sem dúvida. "Existe a fantasia porque a sociedade não está preparada, mas eu sei o que eu quero, sei o que eu sinto e me realizo muito". (Pedro Rocha)

NA INTERNET

O vídeo da Rainha Frágil ferminizando seu submisso ideiafix{RF} está disponível no site YouTube sob o título "Rainha Frágil - vestindo sua "sissy" e foi copiado para esta artigo.

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GLOSSÁRIO:

Concentrando aqui as várias definições da reportagem.

Algolagnia
o ato de transformar a dor em prazer sexual. Um sinônimo para sadomasoquismo.
Baunilha
termo usado para indicar o sexo convencional. Pessoas que não estão envolvidas em BDSM.
Bondage
Bondage, na verdade, conforma as práticas de escravização. Popularmente usado para referir-se a atividades de imobilização com cordas, lenços, algemas de couro ou metal, tornozeleiras, spread bars (barras de alargamento que servem para manter pernas e braços abertos visando à imobilização do(a) parceiro(a). Todas as "cenas" de Bondage remetem ao tema básico: o cativeiro. Dentro dos grupos e comunidades de BDSM existe uma regra básica de segurança, definindo que imobilizações ou "amarrações" só são feitas do tórax para baixo. Cabeça e pescoço são áreas proibidas devido à possibilidade de asfixia.
Bottom
(Do inglês: bottom: fundo, inferior, nádegas) Termo em inglês para se referir ao submisso(a).
Breast Bondage
Ato de amarrar os seios femininos com corda, cadarço, bandagens, etc. Como parte de um jogo erótico BDSM. Pode incluir nipple bondage, onde se amarram os mamilos dos seios. Deve-se tomar cuidado com a amarração dos mamilos para não se provocar uma isquemia tecidual.
Cane
uma vara de bambu ou rattan, que geralmente tem entre 30 e 60 centímetros de comprimento. Muito utilizada pelos ingleses durante sua permanência na Índia, como instrumento de disciplina.
Cena
cena significa a atividade erótica BDSM propriamente dita.
Chibata
peça composta de um cabo e uma haste semi-flexível, normalmente utilizada para montaria. Consegue-se bastante precisão no spanking.
Cinto de Castidade
Aparelho fechado por cadeado ou outro dispositivo que outrora as mulheres usavam, principalmente na idade média, com a finalidade de impedir as relações sexuais. Dentro do BDSM os cintos de castidade tem aplicações temporárias, por horas ou dias, e normalmente são de couro ou um metal não oxidante. Visam impedir o contato sexual. Para os submissos homens existe um aparelho que envolve o pênis e torna a ereção extremamente dolorosa.
Contrato
Um acordo escrito e formal entre as partes (dom e sub) definindo direito e obrigações de cada um. Estes contratos não têm qualquer valor jurídico, mas algumas vezes são utilizados para definir relacionamentos.
Dominador(a)
Quem assume o papel de controle no relacionamento ou na cena. Também pode ser chamado(a) de Top. Um dominador experiente também pode ser denominado Mestre.
Fisting
Inserção completa do punho na vagina ou ânus. Esta prática requer tempo, conhecimento mútuo, relaxamento e paciência.
Limites
As fronteiras das atividades no BDSM acordadas e conversadas entre dominador(a) e submissa(o), definindo o que e até onde uma prática, uma cena ou um relacionamento podem ir. Limites devem ser obrigatoriamente respeitados. O limite se aplica às regras, cenas, práticas, níveis de dominação e submissão, duração das cenas, etc.
Plug
Objeto em forma de pênis, mas com um estreitamento na base, próprio para ser inserido no ânus. Normalmente de látex ou borracha. Alguns podem vibrar ou expelir líquidos. Podem ser usados para treinamento anal.
Privação Sexual
Ato de impedir física ou mentalmente que o(a) submisso(a) tenha prazer. Pode ser aplicado tanto por voz de comando, caso haja um condicionamento para tal, como por meio de aparelhos para impedir as sensações físicas.
Proibição de Orgasmo
Ato de proibir, apenas pela ordem verbal a obtenção de orgasmo por parte do submisso(a). É comum o(a) dominador(a) ordenar ao submisso(a) que não goze, a não ser que ordenado pelo dominador(a). Requer uma grande dose de concentração e auto-controle.
Spanking
Nome utilizado dentro da comunidade BDSM para o ato de bater, notadamente na região das nádegas. Não se pode confundir o spanking dentro do BDSM e do S.S.C. com o ato da violência física. São situações diametralmente opostas. Nenhum dominador(a) ou submisso(a) corrobora ou aceita a idéia de que para entregar-se deve apanhar ou tomar uma surra.
Subspace
Um estado físico e mental ocasionado pela liberação de endorfinas. As endorfinas podem ser liberadas devido ao stress ou á uma prática intensa em uma sessão BDSM. Não é um acontecimento comum.
Submisso(a)
quem abre mão do controle dentro do relacionamento ou do jogo. Pode ser chamado(a) de bottom.
Switcher
Do inglês switch (trocar) - Pessoa que tem prazer em atuar como dominador(a) e submisso(a).
Tickling
Pratica aparentemente inocente, mas utilizada milenarmente pelos chineses como tortura menor. O tickling é o ato de se aplicar cócegas e beliscões em alguém. Psicologicamente perturbador, depois de um tempo transforma-se em uma poderosa forma de estímulo sensual.

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Uma dona de casa pode ser uma domme

Uma investigação sobre práticas do sexo extremo BDSM no Rio de Janeiro, a partir de 12 participantes ativos desta modalidade. Essa foi a proposta do documentário Algolagnia (2006), dirigido por Túlio Bambino, vencedor do I For Rainbow - Festival de Cinema da Diversidade Sexual, realizado ano passado, em Fortaleza. O diretor cedeu entrevista por e-mail sobre a experiência nas filmagens.

Como foi o processo as filmagens com os entrevistados do documentário?

Uma coisa que não deu para fazer foi mostrar a parte auto-reflexiva dessa história, já que eu combinei com todos de preservar a identidade dos personagens, mas asseguro que cada um a sua maneira foi um desafio, pois nenhum deles foi trazido para o filme sem uma entrevista particular com cada um. Todos, sem exceção possuem uma boa cultura e são extremamente conscientes de suas opções sexuais, logo eu tive de mostrar a cada um que buscava fazer um trabalho de registro em vídeo intenso e fiel a verdade de cada um deles.

Você pode falar um pouco sobre como os entrevistados falaram do BDSM em seus cotidianos?

O documentário buscou exatamente abordar o lado humano da coisa em si. Lógico que apresentações e a hierarquia de cada um neste universo foram destacadas, mas saber sobre as crenças e memórias deles me interessou também. O homem contemporâneo possui muitas contradições e múltiplas facetas, todo mundo pode ser o que quiser. No universo sexual não é diferente, de perto todos somos estranhos e bizarros. Uma dona de casa pode ser uma Domme e um empresário de sucesso uma Crossdresser e manterem estes disfarces no armário um tempão.

Em algum momento você se sentiu confrontado com alguns fetiches que surgiram ao longo da entrevista?

Não, tem um pensamento que tento manter quando faço meus trabalhos: "Nada do que é humano causa estranheza", às vezes isso sacoleja, mas se manter focado nessa idéia é importante.

Quais as principais reações ao filme?

Estranheza. No primeiro screening no cinema da (universidade) Estácio de Sá, onde eu completei meu curso de cinema, teve uma pessoa indignada no final dizendo ser impossível aquilo ser verdade, que pessoas na idade da razão não poderiam realizar aquilo que elas diziam, enfim de que o filme não existia. Pois bem, esse tipo de reação em maior ou menor grau sempre se repete. Acompanho discussões no Orkut sobre o filme e mesmo em comunidades de iniciados no BDSM aparece esta ou aquela crítica.

NA INTERNET

Algolagnia - O documentário de Túlio Bambino está disponível na íntegra no site YouTube, com o título "ALGOLAGNIA, a doc about BDSM Scene in Brasil/RJ" e foi copiado para cá - 29 minutos.

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Diversidade sexual patologia psiquiátrica

Bruno Dallacort Zilli
Especial para O POVO
Doutorando em Ciências Sociais, Bruno Zilli
escreve sobre o diálogo histórico da abordagem
da ciência para o fenômeno do BDSM

A sigla BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo) engloba uma diversidade de atividades eróticas que são tradicionalmente classificadas como transtornos sexuais pela psiquiatria, e que entre seus adeptos são regidas e definidas pelo consentimento. A maioria das pessoas que não conhece o BDSM está familiarizada com o termo sadomasoquismo. Durante o meu mestrado estudei a parte da psiquiatria moderna que trata dos transtornos sexuais, me deparando com a seção dos manuais de psiquiatria sobre sadismo e masoquismo. Ao mesmo tempo, descobri que as pessoas que gostam de praticar BDSM se encontram para trocar experiências e se organizam politicamente para combater o estigma e o preconceito que as perseguem. O mais curioso e o que me motivou a escrever sobre o tema foi perceber que a medicina, que considera doentes esses comportamentos sexuais, estava presente nos argumentos de legitimação do BDSM - e não apenas de forma negativa. Ou seja, na defesa do BDSM a medicina era usada como uma referência que ajuda, com seu peso científico, no argumento de que a prática do BDSM não é necessariamente doentia ou perigosa.

A principal característica do BDSM é a natureza consentida de suas atividades. Os praticantes defendem que mesmo que a forma como eles vivenciam a sexualidade pareça diferente para alguns, é sempre importante lembrar que todos os envolvidos estão de acordo com tudo que acontece. Ou seja, é da vontade da pessoa participar. No BDSM se utiliza, inclusive, regras para garantir o consentimento.

Um exemplo muito importante é a safeword, uma "palavra de segurança" que ao ser pronunciada interrompe imediatamente qualquer atividade, garantindo que não se vá além do ponto que deixa a pessoa confortável. Outro argumento é que o BDSM deve ser praticado mantendo sempre em mente a segurança física e emocional dos participantes, tendo em vista que se brinca com os limites do corpo e das emoções. A idéia de que o BDSM é uma espécie de brincadeira erótica ou jogo sexual é muito comum. Ele é até mesmo entendido por muitos de seus adeptos como uma interpretação de papéis, e uma atividade BDSM também é conhecida como uma "cena". Mas seus defensores indicam que se deve respeitar o compromisso com a segurança e o direito de se escolher participar ou não.

A seriedade com que é tratada a questão se reflete no conceito do "SSC", uma das siglas propostas para definir a atividade BDSM, que significa "são, seguro e consentido". São três fronteiras que ajudariam a definir o que é e o que não é BDSM. Somente as atividades que levam em conta a segurança física e mental, bem como o desejo de participar de todos os envolvidos, podem ser consideradas BDSM. E as atividades que não obedecem essas regras? E as pessoas que não respeitam o "não" dos outros ou que extrapolam os limites combinados de segurança do corpo e da mente? Para os praticantes do BDSM é nesse momento que entra a definição psiquiátrica. Mas como? O BDSM, até mesmo o praticado com as regras do SSC, não entra em contradição com a definição da psiquiatria que considera doentio o desejo de misturar sexo com violação? Bem, na psiquiatria também o consentimento se tornou uma distinção importante, pois ele é utilizado como critério diagnóstico para se determinar se uma pessoa tem ou não transtorno sexual. Por exemplo, somente se a pessoa não é capaz de controlar um impulso e age violentamente contra outra em contexto sexual, repetidas vezes, é que ela pode ser considerada como um indivíduo sofrendo do transtorno sadismo sexual.

Além disso, outro critério para diagnosticar alguns transtornos sexuais é também o sofrimento psíquico e/ou a incapacitação para o convívio sexual que ele causa na pessoa. Para os que defendem que a prática do BDSM através do SSC é saudável e segura, essas duas distinções que a psiquiatria traça são fundamentais. Eles argumentam que as atividades BDSM legítimas não transgridem esses critérios diagnósticos, e por isso o BDSM não pode ser definido como transtorno sexual. E que são transtorno sexual exatamente aquelas atividades que não seguem o SSC.

Bruno Dallacort Zilli é cientista social; mestre em Saúde Coletiva, autor da tese de dissertação A Perversão Domesticada: Estudo do discurso de legitimação do BDSM na Internet e seu diálogo com a psiquiatria, pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e doutorando em Ciências Sociais na UERJ.

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A natureza do perverso

O psiquiata Krafft-Ebing chamou de conto de fadas científico as primeiras teorias de Freud sobre " perversões" o psicanalista cearense Antônio Secundo responde porque não

Um dos psiquiatras mais importantes na formulação do discurso científico sobre as patologias sexuais no século XIX, Richard von Krafft-Ebing (1840-1902), não se convenceu da teoria de Sigmundo Freud (1856-1939). O próprio Freud repensaria ela várias vezes, mas sempre seguindo um deslocamento fundamental no entendimento das, então, aberrações sexuais: mudar de lugar o entendimento sobre as perversões sexuais, do campo da patalogia para o da natureza da sexualidade humana.

O Vida & Arte Cultura foi entender como Freud respondeu às inquirições complexas de uma prática que engodou seus próprios conceitos. Em entrevista, o psicanalista e membro do Corpo Freudiano de Fortaleza, Antônio Secundo, 44 anos (havia a foto no jornal, mas optei por não mostrar, já que nada acrescenta ao contexto), autor de dissertação de Mestrado sobre o conceito de "perversão", fala sobre como o fundador da psicanálise pensou o tema e como o masoquismo, particularmente, pôs Freud em uma encruzilhada, obrigando-o a rever um de seus princípios fundamentais, sem, contudo, conseguir explicá-lo. (Pedro Rocha)

Como Freud analisa o sadomasoquismo no contexto, até então, de um discurso da psiquiatria que o ver como patologia? O Freud encontra uma teorização feita pela medicina sobre as perversões sexuais, que são denominadas de aberrações sexuais pela medicina no final do século XIX. Houve nessa época todo um investimento da medicina na catalogação dessas aberrações e perversões, que são encaradas como doenças, como algo de ordem orgânica. Entre as quais aparece o masoquismo. Tem um livro chamado Psychopathia Sexualis, de Richard Von Krafft-Ebing, que é, na verdade, um catálogo com 238 casos, vários tipos de perversões, fetichismo, homossexualismo, sadismo. Quando Freud encontra isso, ele vai fazer uma primeira teorização sobre isso.

Em 1905, ele fala das aberrações sexuais, se referindo a todos esses autores, entre eles Krafft-Ebing. A explicação dada pelos médicos pra chamar isso de aberração é a de que isso é uma degeneração do sistema nervoso. O Freud vai considerar que não é bem assim. Na atividade sexual do ser humano, mesmo em quem não é doente, existe sexo oral, sexo anal, ou seja, a sexualidade das pessoas ditas normais congrega uma série de coisas que não estariam voltadas diretamente ao órgão genital. Ele diz que essas práticas todas não podem ser pensadas como doença, isso é da natureza da sexualidade humana, o próprio aspecto perverso. Ele trata perverso no sentido de desviante do biológico, que é o próprio processo de humanização. Freud vai dizer que a sexualidade humana é exatamente perversão, no sentido de desviante da sexualidade meramente genital. O ser humano não tira prazer apenas do órgão genital. O corpo todo é erotizado.

Dentro dessa teorização, como Freud trata especificamente do masoquismo?

No sadismo, a libido se liga à "pulsão de vida", porque tá se dirigindo a um objeto externo. É uma pulsão de destruição, mas em direção ao outro. O sentimento sádico seria a característica do ser humano de se dirigir ao mundo e dominar o mundo. No masoquismo, o sujeito sofre com a dor dele, e isso pode levá-lo a morte. A morte tira toda a tensão - no sentido de excitação, inclusive, física -, volta ao estado inorgânico, e o corpo tem uma tendência a esse estado. Mas Freud vai dizer que o que rege a sexualidade humana é o princípio do prazer. Então, como o ser humano se dirige para um caminho em que ele vai sofrer? Esse masoquismo tem raízes muito profundas na vida do sujeito. O sujeito não tem só sensações de alívio, ele também tem dores, e esse mal-estar conduz a algum tipo de prazer. Freud, então, percebe que existe uma outra lei. Ele vai hipotetizar a "pulsão de morte", que é uma tendência de retorno ao inorgânico. Ele vai perceber que o desejo humano é contraditório, ocorre sofrimento e gozo. Freud vê a contradição. Ele percebe que existe na clínica um mal-estar constante dentro das pessoas felizes. Ele vê isso de alguma maneira na história da humanidade.

O sadomasoquismo, então, instaura uma contradição fundamental no pensamento de Freud?

Quando ele identifica esse mal-estar, a tendência a auto-destruição do ser humano. O que ele tá identificando primeiro é que isso é coisa da sexualidade humana, o que isso não quer dizer que não venha a se tornar uma perversão. Entre 1920 e 1923, ele vai dizer que o masoquismo é uma coisa originária. Então, o masoquista goza pela erotização da dor, mas ele não deixa uma explicação clara de por que isso acontece, ele realmente não consegue explicar isso. É um fato clínico, mas porque que isso acontece ele não dá uma resposta. O que ele encontra é que o masoquismo denuncia o fracasso do princípio do prazer.

O ser humano estaria em uma tensão entre a pulsão de vida, um sentimento sádico, e a pulsão de morte, masoquista?

O que ele identifica na clínica o tempo todo é que há o conflito, é inegável a presença do conflito, mesmo porque um vai reconhecer o outro lado, um implica o outro, a vida implica a morte e a morte implica a vida. É um raciocínio dialético. No princípio do prazer, o que acontece é que, a medida que eu baixo a tensão, eu evito o desprazer; a partir do momento que eu aumento, eu aumento o desprazer. Isso numa concepção em que o corpo tende a estabilidade.

Mas no caso da relações sexuais, há um aumento da tensão e há um prazer, então isso também contradiz ou revela um certo fracasso do princípio do prazer. A própria sexualidade implica uma certa tensão, uma relação onde as coisas são muito passivas torna-se quase insuportável. Ele fala que há um masoquismo erótico primário, o sujeito pode gozar com a dor. Quando o sujeito nasce que tem a primeira respiração, há uma invasão do ar no pulsão e essa ingestão é uma dor violentíssima, é uma das maiores dores que o sujeito pode sofrer, então, ele tem que chorar realmente, porque é uma invasão da vida, mas ao mesmo tempo uma invasão de dor.

 


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