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ORIGEM: http://www.mtecbo.gov.br/busca/descricao.asp?codigo=5198
Seção A R T I G O S

159:   Os filhos regulamentando
a profissão das mães.

Reproduzido, sem autorização, de:
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2392,
texto de Tavinho Paes

Julho de 2007

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Torne-se legalmente uma PROSTITUTA

Acreditem: sou exímio navegador da web e acho coisas na interNet que preferia ter perdido.
Numa de minhas buscas por novidades nesta seara cheia de surpresas, encontrei algo realmente interessante publicado no site do Ministério do Trabalho e do Emprego. Minha intenção era encontrar vestígios da profissão de POETA e começar a batalhar pelos direitos possíveis a ela destinados/relacionados; mas, diante da descoberta que o acaso me reservou tive que me deixar dobrar e aceitar, à la Nélson Rodrigues, A Vida Como Ela É.

O que achei?

Primeiro, o que achei não achando. Poeta não é profissão registrável no Ministério do Trabalho e do Emprego: ou porque ninguém o emprega para exercer seu ofício ou porque seu ofício não é considerado um trabalho capaz de gerar empregos. Acho a segunda opção mais adequada; embora a primeira seja um insulto mais interessante.

Entretanto, o achado que me aguardava veio num desvão... quase uma rasteira. Um click errado e uma conexão correta. Coisas da vida. Fato é que este Ministério maravilhoso, sensível aos eventos da sociedade civil e preocupado com a vida dos cidadãos, acaba de regulamentar a profissão de PROSTITUTA, ou de trabalhadores que ele (o Ministério) nomeia assim: Garota de programa, Garoto de programa, Meretriz, Messalina, Michê, Mulher da vida, Prostituta, Puta, Quenga, Rapariga, Trabalhador do sexo , Transexual, Travesti. Palavras que deixam de ser de baixo calão e passam a nomear gente que trabalha, dá duro e dá no couro, em horário flexível.

É bem provável que, no próximo ano, esta rentável profissão tenha código numérico próprio (no Ministério ele é: 5198) na declaração do IR, coisa que POETA nunca teve. Sabe-se que, regulamentada, os muitos patrões destes trabalhadores braçais vão ter que melhorar o tratamento que dão a eles. Como a maioria patronal tem laços com as diversas polícias disponíveis no estado, no município e na esfera federal, a aplicação da Lei não deve ser problema.

Depois de todas as acusações de suborno, caixa dois, grana na cueca e mensalão de todo tipo e tamanho, coisas que nos entristeceram desde que conquistamos o direito de escolher nossos governantes, é salutar perceber que o governo Lula está se esforçando para que o sexo pago seja um produto ético, politicamente correto e aceito pelo Estado. Renda para o trabalhador é coisa prioritária, embora trabalho infantil não seja uma opção justa nem aceitável, principalmente na seara que a Lei está entrando com suas burocracias elegantes.

É vero: com este avanço social inequívoco, podemos dizer que o governo Lula está realmente entrando firme na questão do desemprego, mostrando-se aberto e democrático a todas as vocações do povo que governa. A listagem de atividades supra-citadas encontra-se em destaque na seção Classificação Brasileira de Ocupações, disponível no site do Ministério do Trabalho e Emprego, que acaba de inscrever no item 5198, a classificação mais revolucionária de todos os tempos: Profissionais do Sexo.

Nos anais (sem duplo sentido, por favor) do Ministério, os textos destinados a esclarecer quem se enquadra na definição legal são de uma beleza comparável a dos rabos dos pavões. Aliás, vão muito além da classificação, compondo uma verdadeira cartilha para o bom exercício do meretrício, naturalmente focado nos dividendos e na base política que deve representar um sindicato da categoria, pois é claro que esta medida moderna está de olho mesmo nas urnas de 2008 e 2010.

O capítulo sobre Competências Pessoais, por exemplo, traz uma cartilha finamente elaborada com recomendações às não iniciadas nas artes do sexo profissional que desejem navegar por estes mares de espanha. Leiam o que copiei direto do site .org do Ministério e julguem por si mesmos: é ou não é uma maravilha?

Competências pessoais
  • 1 Demonstrar capacidade de persuasão (...ser boa de paquera, né?)
  • 2 Demonstrar capacidade de expressão gestual (nossa!)
  • 3 Demonstrar capacidade de realizar fantasia eróticas (puta que se preza tira essa de letra, exceto quando a fantasia for além dos limites da dor física)
  • 4 Agir com honestidade (essa é boa)
  • 5 Demonstrar paciência (essa é melhor ainda)
  • 6 Planejar o futuro (...impressionante!)
  • 7 Prestar solidariedade aos companheiros (será que tem a ver com a disputa com os travestis pelos pontos de pegação?)
  • 8 Ouvir atentamente (saber ouvir) (deve ter a ver com fazer o que o cliente está mandando)
  • 9 Demonstrar capacidade lúdica (esse é de matar de alegria)
  • 10 Respeitar o silêncio do cliente (a maioria em exercício pode perder as questões trabalhistas em que se envolver só por conta deste detalhe fundamental)
  • 11 Demonstrar capacidade de comunicação em língua estrangeira (bom... somos o país mais habilitado ao turismo sexual e como nossa vocação para o turismo não tem limites...)
  • 12 Demonstrar ética profissional (todo mundo sabe que o governo anda preocupadíssimo com isso)
  • 13 Manter sigilo profissional (...depois do escândalo da Casa do Lago Sul envolvendo até o Pallocci, o governo deve estar planejando alguma coisa para evitar futuros estragos na sua imagem; afinal, homem casado e cheio de poder só encontra prazer no bordel)
  • 14 Respeitar código de não cortejar companheiros de colegas de trabalho (como?! Essa não entendi direito)
  • 15 Proporcionar prazer (será que alguém procura uma profissional do sexo por outro motivo?)
  • 16 Cuidar da higiene pessoal (deve estar incluído banho antes e depois de cada serviço)
  • 17 Conquistar o cliente (aí é demais...)
  • 18 Demonstrar sensualidade (...tá boa, santa?)

A leitura deste manual governamental é uma loucura. Nem os surrealistas ousariam algo tão espetacular.

Por exemplo, há um item fundamental aos pretendentes a um emprego na calçada intitulado Recursos de Trabalho, cheio de dicas que nem a Casseta & Planeta seriam capazes de imaginar.

Recomenda-se que a pessoa não comece no ramo com uma mão na frente e a outra atrás e que tenha um guarda-roupas de batalha alinhado com as tendências da moda.

Depois avia uma lista básica de ferramentas que incluem a politicamente correta camisinha; gel lubrificante (o coito anal é o mais desejado), papel higiênico, documentos de identificação, celular... e outros; com especial cuidado para não dar ao álcool nenhum destaque, pois podem achar que se trata de bebida e não do antiséptico que, aliás, passado na glande ou na mucosa vaginal arde prá caraca...

Agora... a tal Tabela de Atividades, que poderia ser chamada (sem ofensa aos carolas) de Bíblia do Meretrício é uma obra prima. O item Batalhar Programa (está escrito assim mesmo), é um manual de caça de primeira linha. Suas dicas (a seguir) dispensam comentários:

  • Agendar a batalha (marcar ponto)
  • Aguardar no ponto (esperar por quem não ficou de vir)
  • Seduzir com o olhar (piscadinha com rímel ajuda...)
  • Seduzir com apelidos carinhosos (como nas novelas)
  • Conquistar com o tato (a famosa patolada)
  • Envolver com o perfume (para as zonas erógenas existem produtos nauseantes - tarado gosta de cheiro de peixe mesmo! Bacalhau...)
  • Reconhecer o potencial do cliente (se o pau for pequeno, elogiar...)

Para Atender Clientes, as recomendações governamentais são precisas e se ajustam às recomendadas pelos sindicatos:

  • Especificar tempo de trabalho (se o cara tomar Viagra pode mais de duas horas)
  • Fazer strip-tease (...muito boa idéia!)
  • Representar papéis (...de mãe, criança para pedófilos, séria para tímidos, cachorrinha para funkeiros...)
  • Inventar estórias (...essa deve ter sido insistência do governo)
  • Dar conselhos a clientes com carências afetivas (...ooops: avisem aos psicanalistas que, depois dessa idéia, eles estão prestes a perder seus empregos)
  • Prestar primeiros-socorros (...curso com Bombeiros é o indicado: infarto pode ser o mais comum)
  • (e last but not least)
  • Manter relações sexuais (...pelo menos algo lógico tinha que aparecer na lista)


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