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Seção A R T I G O S
Porque sempre existem divergências.
Reproduzido de um texto da comunidade FemDom, visitantes |
Um amigo do meio outro dia me questionava sobre o porquê é tão difícil haver harmonia no nosso meio. Harmonia no sentido estrito do termo, ou seja, um clima de tranqüilidade, de respeito, de entendimento, onde as coisas boas de cada pessoa pudessem fluir sem obstáculos nem agressões. Andei pensando sobre a pergunta, e cheguei à seguinte resposta: é porque não somos iguais. Verdade, embora a gente goste de acreditar no contrário, por causa dessa nossa preferência sexual. Gostamos de pensar em nós mesmos como uma irmandade, um grupo coeso, uma "família" unida. Nada mais longe da realidade. Não, não me refiro à nossa realidade – refiro-me à realidade do mundo como um todo. Não existem irmandades, grupos coesos ou famílias harmônicas, salvo por determinados períodos de tempo. E a probabilidade da harmonia é inversamente proporcional ao número de seres humanos envolvidos no grupo. Irmandades, grupos e famílias, todos enfrentam dissidências internas o tempo todo. Reduzindo-se ao mínimo denominador comum, um casal (pouco importa o sexo) está igualmente sujeito a essas dissidências. Nenhum ser humano tem exatamente as mesmas posturas, crenças, valores, conceitos que outro ser humano. Sempre há diferenças, maiores ou menores, e elas sempre virão à tona, ainda que isso leve anos. Não somos criaturas socialmente harmônicas, porque nossa harmonia jamais vem de fora – vem de nós mesmos, do equilíbrio que encontramos em nossas mentes e nossos corações. E não podemos impingir essa harmonia – que para nós é boa, saudável e correta – a outras pessoas, porque a harmonia delas sempre vibrará num tom diferente do nosso. Mas então estamos condenados à solidão perene ou à discussão interminável? Se o que expus acima é verdadeiro, como então explicar que ainda existam irmandades, grupos, famílias e casais vivendo juntos durante anos e anos – às vezes por toda uma vida? Acontece que o grande segredo – o segredo que essas irmandades, grupos, famílias e casais descobriram – não é querer trazer os outros para dentro da nossa própria harmonia. Não é tentar convencer ninguém de que temos a resposta para a felicidade interior, e que basta que as pessoas sigam nosso receituário para que elas também atinjam a felicidade interior. Não é querer a conversão dos outros, como se fôssemos sacerdotes da verdade. O grande segredo que permite a convivência entre dois ou mais seres humanos é a capacidade ímpar que temos, como criaturas racionais e pensantes, de nos sabermos limitados em nós mesmos – e de sabermos os outros na mesma condição. A maneira como encaramos esse conhecimento é que faz toda a diferença, porque aceitar o outro significa aceitar que o outro não é igual a nós. Nossos relacionamentos pessoais sempre se baseiam em um ou mais pontos em comum, é verdade – mas não se pode esperar nunca que todos os pontos sejam comuns. Quando descobrimos isso, há apenas dois caminhos lógicos a seguir: ou nos afastamos da outra (ou das outras) pessoas, porque não conseguiremos conviver com quem acredita que o céu é azul-claro, enquanto nós temos certeza de que ele é azul-escuro; ou aceitamos que a cor do céu, no final das contas, não é assim tão importante, e que discutir sobre isso não alterará em nada o fato do céu ter nuances que vão do azul-claro ao azul-escuro. E que não é culpa do céu, nem nossa, nem dos outros, se não temos a capacidade de compreendermos que existem nuances – apenas nós não olhamos com a devida atenção, porque sempre preferimos olhar apenas para aquele tom que nos cai melhor. Claro, há um terceiro caminho – o de tentar convencer a outra pessoa (e o próprio céu) de que existe apenas o azul-escuro. E é exatamente aqui que a desarmonia surge com toda a sua força. Essa irresistível tendência de converter os outros a nossos próprios pontos de vista, essa vontade de angariar seguidores, essa vaidade de querer deter a verdade nas mãos, esse ego que se coloca acima e além dos outros – eis o que rompe, desestrutura, separa, agride, fere e ofende. E nós não somos diferentes de outros grupos ou irmandades ou famílias. O que nos une é a paixão por uma determinada prática sexual, o BDSM. Isso posto, há toda uma miríade de outras coisas capazes de nos desunir. Há dezenas, talvez centenas, de possibilidades de se praticar as técnicas bdsmistas. Elas existem porque alguns de nós, em algum momento, rompemos com o que antes já havia e criamos uma nova, "nossa". Elas continuam existindo porque outros de nós não romperam com elas. Elas existirão porque alguns de nós continuarão seguindo as regras de cada uma, e eventualmente, também romperão com essas regras, criando novas possibilidades e novas técnicas. O nome disso é evolução – e ela pode ser boa ou ruim, ou nem boa e nem ruim, dependendo do ponto de vista de cada um. Para os que preferem um BDSM mais conservador, mais tradicional, mais litúrgico, essa evolução é ruim, porque rompe com preceitos que eles respeitam e defendem. Para os que preferem um BDSM mais criativo, menos preso a definições e aberto a novas possibilidades, ela é boa. E para os que navegam entre um e outro extremo, ora seguindo a liturgia, ora deixando-a de lado, ela não é boa e nem ruim – simplesmente existe, e por existir, merece ser conhecida e explorada. O fio que nos une, portanto, é clara e extremamente tênue. E para não ser rompido, exige de cada um de nós um imenso cuidado no tato. Um puxão mais forte, um esbarrão impensado e pronto – a única coisa que nos une enquanto grupo, irmandade ou família se rompe. Claro, muitos de nós criamos e cultivamos amizades aqui que vão além do BDSM – e essas amizades sobreviveriam a esse rompimento. Mas não me refiro a casos individuais – refiro-me ao rompimento do grupo como um todo. Infelizmente, o fato de fazermos parte de um grupo onde o cimento é o BDSM não nos transforma, num passe de mágica, em pessoas melhores. Continuamos aqui dentro, como lá fora, a manter nossas personalidades, para o bem ou para o mal. Não fazemos um cursinho sobre tolerância e respeito mútuo para entrar nesse universo. Não recebemos um aprendizado sobre o significado real da diversidade – e da necessidade inerente de sabermos como conviver com ela. Portanto, se somos intolerantes e preconceituosos fora do BDSM, também o seremos aqui dentro. Se não aceitamos a infinita diversidade e suas infinitas combinações (para citar um velho amigo vulcano) lá fora, tampouco a aceitaremos aqui dentro. Se somos donos da verdade, se queremos doutrinar as pessoas, se buscamos convencer que a nossa harmonia interior é a única que existe, seremos aqui também tudo isso. Portanto, no fim das contas, o BDSM é um mero detalhe – por si só, ele não muda nada em nós. Não nos ajuda a nos tornarmos pessoas melhores, pouco importa se seja visto apenas como uma alternativa de realização sexual quanto, como muitos frisam, como estilo de vida. Não interessa – nada disso interessa. Mas interessa muito aprendermos a usar o BDSM como possibilidade de crescimento. No fim e ao cabo, as pessoas que estão aqui, ou pelo menos a maioria delas, são "diferentes" de quem está lá fora. É o que, afinal, nos distingue como grupo ou irmandade ou família, chamem como quiserem. Ora, se procuramos a companhia uns dos outros, é porque nos reconhecemos diferentes – e porque precisamos da companhia de nossos iguais nessas diferenças. Só isso já deveria ser motivo mais do que suficiente para que preconceitos internos não existissem. E de fato seria – não fôssemos nós tão incapazes de oferecer o mesmo respeito à diversidade que exigimos que nos seja dado com tanta avidez. Queremos esse respeito, mas não o oferecemos. Defendemos o direito às diferenças, desde que isso não signifique abrir mão de nossos preconceitos. Dizemos que somos defensores da liberdade, mas não conseguimos sequer aceitar que haja liberdade dentro de nosso próprio universo se ela vier contra aquilo que achamos que é "certo". Ainda estamos muito longe de sermos uma comunidade – estamos mais para um bando de esponjas a absorver o que de melhor há à nossa volta, mas incapazes de oferecer qualquer coisa em troca. Ao final dessa reflexão, me veio uma outra pergunta: será que vale a pena continuar aqui? Será que ainda terei paciência para ver tanta guerra de egos, tantas discussões ocas, tantas colocações agressivas e troca de ofensas ? Será que isso me traz alguma coisa que não desgosto e desânimo? A resposta, para mal dos meus pecados, é que sim. Não acredito em desistências, nem em estagnação. Disse outro dia aqui mesmo nesta lista que a única constante do Universo que conheço é que tudo muda, e tudo muda o tempo todo. Se para melhor ou para pior, depende das ações de cada um. De minha parte, vou continuar por aqui, tentando, ainda que dentro das minhas limitações, colaborar para que um dia a gente possa usar o termo "comunidade" com propriedade. É o mínimo que me sinto obrigado a fazer pelos muitos amigos que fiz, pelas muitas experiências fantásticas que tive e por tudo o que já aprendi nesses muitos anos de convívio com vocês. E desculpem pelo longo texto – prometo ser mais sucinto nos próximos. O assunto, contudo, era por demais complexo para ser resumido em poucas linhas. EdgehFev/2007
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