Seção A R T I G O S
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O termo sadomasoquismo (SM) designa uma tendência para práticas sexuais que incluem as idéias de dominação e submissão ou de impingir ou receber estímulos dolorosos mais ou menos intensos ligados ao prazer, bem como a idéia de diversos tipos de sofrimentos impingidos a si ou ao(s) parceiro(s). O termo “sadismo” refere-se ao escritor francês Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade, e o termo “masoquismo”, ao escritor austríaco Leopold Ritter von Sacher-Masoch, que da mesma forma que Sade, punha em prática na sua vida cotidiana as fantasias de castigos corporais, de humilhações, imaginados nos seus romances. As tendências sadomasoquistas existem, em maior ou menor grau, em qualquer pessoa e fazem parte das múltiplas expressões da complexa sexualidade humana, apesar de, muitas vezes, encontrarem-se reprimidas em cantos obscuros do inconsciente ou, mesmo vindo à consciência sob forma de sonhos ou fantasias, jamais serem expressar na prática. Por outro lado, existem muitíssimas pessoas em todo o mundo que exercitam esta sua porção sadomasoquista, especializando-se em técnicas sádicas, masoquistas ou em ambas, constituindo estes últimos os verdadeiros sadomasoquistas, na mais pura acepção da palavra. Uma relação sadomasoquista pode se apresentar sob formas muito variadas: relações estáveis e duradouras, eventuais e fortuitas, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, em duplas ou em grupos. Suas expressões são tão variadas e distintas quantas são as expressões da sexualidade humana. No entanto, ao contrário do que pensam muitas pessoas, não há nada de pervertido ou violento: o SM é uma prática relativamente comum, na qual pessoas praticam técnicas diferentes, mas estão de pleno acordo com o que será feito. Paradoxalmente ainda hoje em dia o sadomasoquismo é visto pela Psiquiatria clássica como um desvio de sexualidade, incluída na lista das ditas “parafilias”, e encarada como uma doença em potencial ou um processo patológico. A grande incoerência está que mesmo Sigmund Freud já descrevia o SM como uma fase normal do desenvolvimento infantil e sob este tema, seu discípulo Wilhelm Reich muito discorreu, identificando detalhadamente a fase masoquista e a fase sádica como etapas consecutivas da chamada fase anal (dos 2 aos 3 anos de idade). Apesar do diagnóstico ainda figurar na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde, a maioria dos psiquiatras e dos psicólogos já entendem o SM como uma expressão aceitável da sexualidade, quando ocorre de forma consensual e livre entre pessoas adultas e em plena consciência de seus atos. Tapas, chicotadas, mãos amarradas, boca amordaçada: os psicólogos e os psiquiatras estão chegando à conclusão de que o sadomasoquismo não é doença e pode até dar mais satisfação a algumas pessoas do que o sexo convencional. Há uma regra básica que deve ser seguida sempre: tem que haver consentimento. Como qualquer contato sexual, nenhum ato sadomasoquista pode acontecer sem a concordância do parceiro. E não é só isso: mesmo que os dois estejam de acordo, a prática não pode deixar lesões sociais, físicas e psicológicas. Ou seja, só é possível experimentar alternativas radicais quando há total respeito e confiança entre os parceiros. Segundo a Organização Mundial de Saúde, classificado sob o número F65.5, é sadomasoquista aquele que tem "preferência por um atividade sexual que implica dor, humilhação ou subserviência. Se o sujeito prefere ser o objeto de um tal estímulo fala-se de masoquismo; se prefere ser o executante, trata-se de sadismo. Comumente o indivíduo obtém a excitação sexual por comportamento tanto sádicos quanto masoquistas (CIDX, 1994)". Na década de 80, a Associação Americana de Psiquiatria tirou o sadomasoquismo da sua lista de desajustes mentais. Ou seja, pelo menos nos Estados Unidos, ele deixou de ser considerado uma doença. Nossa sociedade, no entanto, é mais moralista que a deles, o que justificaria o fato de que muitos especialistas brasileiros continuam mantendo a opinião tradicional. Mas o fato é que deixou de ser absurda a idéia de que algumas pessoas se satisfazem quando sentem dor ou quando passam por situações humilhantes. Homens e mulheres que têm dificuldade de se entregar completamente no ato sexual, por exemplo, podem sentir-se paradoxalmente liberados dessa cobrança quando estão amarrados. Assim, inteiramente expostos ao parceiro e sem poder opor-se aos avanços dele, forçam-se a se envolver completamente no sexo. dessa forma, terão mais prazer. E não há nada de errado nisso. Com freqüência as pessoas de fora da cena (do "meio BDSM") não vêem o "appeal" em nenhum dos jogos, aparentemente dolorosos, praticados pelo pessoal SM. O que há de agradável em ser golpeado? Qual a graça em ser machucado? Bem, pense nisso: você já teve sexo intenso e depois notou marcas de mordidas no seu pescoço, mordidas que você nem se lembrava que tinha levado? O que aconteceu foi que seu parceiro mordeu você, COM FORÇA, com força suficiente para te marcar, e tudo o que você sentiu foi outro arrepio de prazer. Se te mordessem assim tão forte numa ocasião em que não existisse sexo, você gritaria, porque isso machucaria muito. Mas, quando você está sexualmente estimulado, a sua tolerância à dor aumenta, e o estímulo que habitualmente você sente como dor se torna, então, prazeroso. Outra explicação comum é que o cérebro produz endorfinas, anestésicos naturais, para compensar a dor. E você, na verdade, acaba se livrando da sensação de dor. A sensação de bem estar, extremamente gostosa que vem junto com o exercício físico continuado, o chamado "runner´s high" vem de forçar o corpo dolorosamente por tanto tempo que as endorfinas acabam por arrebatá-lo; a sensação que você tem depois de comer algo apimentado vem da mesma origem; e é isso que faz com que os praticantes de SM sintam prazer em serem açoitados ou espancados, ou seja, lá o que for. Não é dor; é prazer! Todos os atletas que são "doidos por exercícios" são essencialmente masoquistas que gostam de desgastar seus corpos para terem a resposta química. Então, aquele seu amigo que adora ser espancado pode, na verdade, estar sendo muito menos masoquista do que você é quando faz uma corrida! Um ato SM é então muitíssimo próximo a uma situação de jogo ou a um evento teatral: os adultos se permitem a realização de suas fantasias, tal qual as crianças brincam de “faz-de-conta”. Tanto isto é assim, que comumente o ato SM é chamado de “cena”. Antes que se parta para uma cena SM, é necessário um bom conhecimento entre os parceiros e a criação de uma noção de respeito e confiança que se processa por uma etapa de negociação e estabelecimento de limites e objetivos, sendo bastante comum também a instituição de uma palavra de segurança (“safe word”) para ser usada em situações de emergência. Felizmente, a maioria das atividades SM, tais como "bondage", "spanking" e provocação (humilhação), não são tão severas e você pode começar de forma "light" e aumentar a intensidade de acordo com o ritmo dos dois. Preste atenção no que você está fazendo, use o bom senso e você não se arrependerá. Em geral, comece devagar e PRATIQUE! Você aprenderá rapidamente, se divertirá ao longo do caminho e então, passará apenas por situações com as quais tem sonhado! Técnicas SM e seus vocabulários específicos
Normas e Dicas de Segurança
Segurança Emocional
Antes de tudo, comunicação. Deixe seu parceiro saber o que você quer e o que não quer. Mantenha o diálogo constante, observe seu parceiro, esteja atento ao que ele ou ela possa estar sentindo e pensando, e respeite seus limites. Estabeleça uma "safeword", e deixe bem claro que ela vai ser EXTREMAMENTE respeitada se usada. NÃO assuma que o seu parceiro compartilha de uma mesma fantasia que você, a menos que vocês tenham conversado EXPLICITAMENTE; o fato de algumas pessoas gostarem de ser vendadas não significa que todas elas gostariam de ser amarradas. E o mais importante, as duas pessoas devem ter total liberdade para parar a qualquer hora, por qualquer motivo; respeitem-se o suficiente para encerrar, para terem um descanso e analisar as coisas, se algo sair errado. Seja sensível. O jogo SM, o qual pode (não tem que! Mas pode) envolver a falta de socorro, sensações intensas e dominação psicológica, é algo forte; pode atingir profundamente a alma de alguém e trazer à tona traumas de infância ou medos escondidos, sem avisar. Esteja ciente de que você está nadando em águas profundas e use de respeito, seja amável e cuidadoso. Não deixe essa realidade afastar você do SM, mas, se quiser experimentar, torne-se mais atento e aberto ao que ambos estão sentindo. Acima de tudo, decida-se por você mesmo, se o SM (ou elementos do SM) tem lugar na sua vida sexual. Não dê ouvidos quando qualquer outra pessoa disser a você "o SM vai ser legal para você" ou "O SM não vai ser legal para você". Só você pode tomar essa decisão. Seja honesto. Se você não quiser fazer algo, não deixe seu parceiro pressioná-lo. Quando você começar a explorar o SM, você pode se encontrar em uma situação em que seu parceiro quer algo além do que você tenha experiência para fazer, ou alguém que está com disposição para fazer algo que você não está disposto a fazer, naquela hora. No meu caso, geralmente acho melhor dizer, "Hei, acho que estamos querendo coisas diferentes. Vamos conversar". Fazer uma cena quando você realmente não quer, pode resultar desde uma cena tépida até algo que você deseja que acabe logo. Com uma boa dose de tempo, honestidade e principalmente não forçar situações ou atitudes, vocês construirão uma base de confiança que deixará você mais disposto em outra ocasião. Outro tipo de jogo SM especialmente "cobrado" é a dominação e a submissão, na qual o "bottom" (dominado) se desprende de uma parte de sua liberdade de escolha dando-a ao "top" (dominador), que pode comandar essas escolhas. Embora muitas pessoas com fortes limitações possam brincar disso de maneira perfeitamente segura (e sentem muita felicidade e satisfação em fazê-lo), esse tipo de jogo pode trazer alguns riscos emocionais reais para pessoas com baixa auto estima. O risco é que o dominador possa acabar abusando do seu poder, usando a dinâmica do SM para fazer com que o submisso se sinta mais inválido, sem forças e conseqüentemente disposto a deixar o dominador tomar conta de algo a mais que a sua independência. Se você tem dúvidas sobre seu próprio valor e se você pensa que ser um submisso (ou se isso é uma idéia decorrente) pode servir para confirmar e consolidar sua auto estima negativa, é muito importante que você pare e pense seriamente se você deve praticar o SM nessa fase da sua vida. A resposta pode muito bem ser "não" (e por outro lado, se você está pensando em dominar alguém que quer se submeter porque pensa que não merece o bem, você deve considerar se você quer um parceiro que pensa tão mal de si mesmo). No geral, é primordial que qualquer um que pratique o SM pesquise bem suas motivações e limitações e ser claro se o SM (em qualquer nível) é auto realizador ou auto destrutivo. Não pode ser tudo preto e branco, da mesma forma que, podem existir algumas atividades ou papéis, ou mesmo palavras em particular que farão com que você se sinta inseguro, com medo, ou sem valor e você pode muito bem querer evitar essas atividades/papéis/palavras. É exatamente para isso que existe a negociação, você tem o direito de fazer aquilo que o faz se sentir bem e de evitar aquilo que não te faz bem e você também tem o direito de insistir para que o seu parceiro respeite suas limitações (isto serve para qualquer relacionamento, é claro, BDSM ou não). O questionamento de "quando as relações SM se tornam excessivas ou abusivas" é freqüente e por uma boa razão: é um fato importante que o BDSM às vezes pode ser terapêutico, mas não é de maneira alguma um substituto para a terapia. Já foi dito que "você não pode obter uma força de alguém que não a tem". Um relacionamento SM é baseado no respeito mútuo, e no conhecimento de que ambos os parceiros estão escolhendo esta vida estando totalmente informados e não sendo coagidos, que o submisso tem orgulho em se submeter e o dominador tem orgulho em receber o dom desta submissão. É muito diferente de uma relação abusiva na qual um dos parceiros controla toda a vida do outro, com o objetivo de torná-lo irrevogavelmente e totalmente dependente.
Segurança Física
De volta ao plano físico: se você é um "top" e você está amarrando seu "bottom", mantenha a sua atenção naquilo que você está fazendo. Seu "bottom" vai extasiá-lo; cabe a você ver se ele está confortável e mantê-lo entretido. O "entretenimento" pode ser tão indecente quanto você quiser, mas observe se o "bottom" não está ficando aborrecido; isso raramente é diversão (se você como top está insatisfeito com seu submisso por ele quebrar algum acordo que vocês dois fizeram, ignorá-lo ou mandá-lo embora pode ser a punição mais cruel que você pode usar. Mas isso já é algo bem avançado). Lembre-se da AIDS e das demais doenças sexualmente transmissíveis. Quase tudo relacionado ao contato bucal ou à pele exposta é potencialmente inseguro, a menos que algum tipo de barreira de látex seja usada. No contato de qualquer combinação de dedos, genitais, boca e ânus: use uma barreira de látex para lamber ou para quando estiver á margem disso (i.e contato anal-oral), luvas para penetração manual, camisinhas em dildos e pênis. Use lubrificantes à base de água; se o lubrificante tiver o nonoxyl-9 é muito melhor (mas algumas pessoas são alérgicas ao nono-9 e Deus sabe que o gosto é HORRÍVEL!). ÓLEOS e LUBRIFICANTES À BASE DE ÓLEO DISSOLVEM O LÁTEX; mantenha o óleo mineral e de massagem longe das suas luvas e preservativos (e pelo mesmo motivo, das roupas de látex!). Sangue, sêmen, secreções femininas e urina, podem conter o HIV. Brinque muito, mas brinque com segurança (uma coisa interessante sobre o SM é que ele aumenta a extensão das maneiras seguras que as pessoas usam para satisfazerem umas às outras! Mas também aumenta as maneiras inseguras de jogar). Desinfete seu equipamento SM depois de usá-lo, lavando-o com uma solução desinfetante. A Betadina é provavelmente o agente desinfetante mais usado. Obrigatoriamente desinfete dildos, coisas cortantes, qualquer coisa que perfure ou que poderia ter entrado em contato com sangue. Desinfete chicotes e instrumento afins, se na cena tiver sido pesada o suficiente para causar ferimentos. Passar álcool não é tão bom quanto limpar os objetos usados com um agente com propriedades antibacterianas. Muitos "tops" usam um “kit” de segurança SM, contendo (entre outras coisas) alguns itens como uma lanterna, chaves duplicadas para todas as fechaduras, tesouras para bandagem (com uma lâmina achatada) que servem para remoção rápida em um bondage, um “kit” de primeiros socorros com todos os itens padrão para esse procedimento, desinfetante para os brinquedos que entraram em contato com fluidos corporais, suprimentos de segurança para sexo (algumas vezes incluindo uma grande variedade de lubrificantes - pessoas diferentes precisam de lubrificantes diferentes) e assim por diante.
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